TUDO BEM QUANDO TERMINA BEM 
(All's well that ends well) 
William Shakespeare 
NDICE 
ATO I 
Cena I 
Cena II 
Cena III 
ATO II 
Cena I 
Cena II 
Cena III
Cena IV 
Cena V 
ATO III 
Cena I 
Cena II 
Cena III 
Cena IV 
Cena V 
Cena VI 
Cena VII 
ATO IV 
Cena I 
Cena II 
Cena III 
Cena IV 
Cena V 
ATO V 
Cena I 
Cena II
Cena III 
Personagens 
O REI DA FRANA 
O DUQUE DE FLORENA. 
BERTRAM, Conde de Rossilho. 
LAFEU, um velho nobre. 
PAROLLES, companheiro de Bertram. 
O Intendente da Condessa de Rossilho. 
LAVACHE, bobo da casa da condessa. 
Um pajem. 
A CONDESSA DE ROSSILHO, me de Bertram. 
HELENA, jovem nobre, protegida pela condessa. 
Uma velha viva de Florena. 
DIANA, filha da viva. 
VIOLENTA, vizinha da viva e sua amiga. 
MARIANA, vizinha da viva e sua amiga. 
Nobres, oficiais, soldados, etc., franceses e florentinos. 
ATO I 
Cena I 
Rossilho. Um quarto no palcio da condessa. Entram Bertram, a Condessa de Rossilho, Helena e 
Lafeu, todos de luto. 
CONDESSA - Consentindo que meu filho se afaste de mim, enterro um segundo marido. 
BERTRAM - E eu, senhora, partindo, renovo o pranto pela morte de meu pai; mas preciso acatar a 
ordem de Sua Majestade, de quem ainda sou pupilo, como sou e serei sempre vassalo. 
LAFEU - O rei, minha senhora, vai ser para vs como segundo marido, e para vs, senhor, como 
segundo pai. Quem sempre e em tudo se mostrou bondoso, no h de desmentir-se agora em relao a 
vs, cujo merecimento  mais prprio para despertar a bondade onde quer que haja falta dela, do que vir 
a padecer-lhe a falta onde ela viceja com tanta exuberncia. 
CONDESSA - Que esperanas h quanto ao restabelecimento de Sua Majestade? 
LAFEU - J abandonou os mdicos, minha senhora, sob cujos cuidados ele malgastava o tempo com 
esperanas, tendo lucrado com essa resoluo por perder definitivamente a esperana. 
CONDESSA - Esta menina teve pai - Oh! que tristes recordaes se encerram neste "teve"! - cujo talento 
era quase to grande quanto a honestidade. A se terem igualado, teria deixado imortal a natureza, ficando 
a morte em frias, por falta de trabalho. Em benefcio do rei, fora de desejar que ele ainda estivesse vivo. 
Penso que seria a morte da doena do rei. 
LAFEU - Como se chamava o mdico a que vos referis, minha senhora?
CONDESSA - Foi muito clebre em sua profisso, senhor, e com toda justia; chamava-se Gerard de 
Narbon. 
LAFEU - Com efeito, minha senhora; foi um excelente mdico. No faz muito tempo o rei me falou dele 
com admirao e pesar. Seus conhecimentos lhe assegurariam vida longa, se a cincia pudesse levar 
vantagem com relao  morte. 
BERTRAM - De que sofre o rei, meu caro senhor? 
LAFEU - De uma fstula, milorde. 
BERTRAM - Ainda no tinha ouvido falar nisso. 
LAFEU - Desejara que o fato no fosse notrio. Esta senhorita  filha de Gerard de Narbon? 
CONDESSA - Filha nica, milorde, que ficou confiada aos meus cuidados. Tenho esperanas de que a 
sua bondade confirme o que promete a educao. Herdou uma disposio que torna mais belos os 
talentos; pois sempre que um esprito grosseiro vai de par com boas qualidades, o elogio arrasta  
comiserao: so, a um tempo, virtudes e traidores. Nela, porm, essas qualidades se distinguem tanto 
mais por causa da simplicidade que lhe  prpria: a honestidade  herdada; a bondade, adquirida. 
LAFEU - Vosso elogio, senhora, arrancou-lhe lgrimas. 
CONDESSA - No h melhor sal para uma jovem temperar o elogio de si prpria. Nunca se lhe 
aproxima do corao a lembrana do pai, sem que a tirania da tristeza lhe faa desaparecer das faces a 
aparncia da vida. Basta, Helena, basta para que no parea que demonstras uma tristeza que no sentes. 
HELENA - A tristeza que eu demonstro  realmente sentida. 
LAFEU - Os mortos tm direito a lamentaes moderadas; a tristeza excessiva  inimiga da vida. 
HELENA - Se a vida e a tristeza so inimigas, o excesso de tristeza acaba sendo fatal para si prpria. 
BERTRAM - Querida me, imploro vossas santas oraes. 
LAFEU (a Helena) - Como compreendermos isso? 
CONDESSA - Eu te abeno, Bertram. Desejo que herdes de teu pai o exterior e as qualidades. Que o 
sangue te regule, em competncia sempre com a virtude, e que a bondade do bero se te iguale. A todos 
ama, confia-te de poucos, no ofendas ningum; temer te faas dos inimigos mais pela tua fora do que 
mesmo pelo uso que fazer dela pudesses; guarda o amigo no peito a sete chaves; antes ser censurado por 
calado do que por falador. Que as bnos todas que o cu te queira dar e as que te possam advir de meus 
pedidos, em ti caiam. Passa bem. Ele ainda no se encontra, caro senhor, maduro para a corte. 
Aconselhai-o para o bem. 
LAFEU - No h de lhe faltar nunca o que puder obter-lhe minha dedicao. 
CONDESSA - Todas as bnos do cu caiam sobre ele. Adeus, Bertram. 
(Sai.)
BERTRAM (a Helena) - Que fiquem  vossa disposio todos os bons desejos que amadurecerem em 
vosso entendimento. Sede o consolo de minha me, vossa senhora, e tende-a sempre em considerao. 
LAFEU - Adeus, gentil senhorita;  preciso sustentardes a reputao de vosso pai. 
(Saem Bertram e Lafeu.) 
HELENA - Oh, se tudo fosse isso! Mas no penso quase em meu pai. Aquelas grandes lgrimas lhe 
honram mais a memria do que quantas por ele eu derramasse. Como era ele? Esqueci-me de todo; no 
conservo na retentiva traos fisionmicos alm dos de Bertram. Estou perdida. Vida no h onde Bertram 
no se ache. Mas  o mesmo que amar um fulgente astro e querer despos-lo. Est to alto! Posso 
alegrar-me em sua luz radiosa e dela receber algum reflexo, mas no mover-me nunca em sua esfera 
Minha ambio, desta arte, se castiga. Deve morrer de amor a cora tmida que aspirava a um leo para 
consorte. Admirvel, a um tempo, e doloroso era v-lo a toda hora, desenhar-lhe na tela do meu peito os 
lindos cachos, o arco dos superclios o olhar de guia, neste peito to vido das linhas do menor trao de 
seu doce rosto. Mas partiu, s restando  minha idlatra paixo simples relquias. Quem vem vindo? Um 
de seus companheiros de viagem. Estimo-o s por isso, embora o tenha na conta de um notrio 
mentiroso, poltro de marca, um tolo irremedivel; mas resguardam-no muito esses defeitos e lhe vo 
bem, ao passo que a virtude de ossos de ao tirita ao vento frio. No poucas vezes vemos a indigente 
sabedoria depender em tudo da tolice suntuosa e exuberante. 
(Entra Parolles.) 
PAROLLES - Deus vos guarde, bela rainha. 
HELENA - E a vs tambm, monarca. 
PAROLLES - Monarca, no. 
HELENA - Nem rainha, tampouco. 
PAROLLES - Estveis a meditar sobre a virgindade? 
HELENA - Justamente. E j que tendes algo de soldado, permiti que vos faa uma pergunta. O homem  
inimigo da virgindade: de que modo nos defendermos dele? 
PAROLLES - Repelindo-o 
HELENA - Mas ele redobra de esforos; e conquanto valente, a virgindade  fraca. Ensinai-nos algum 
processo guerreiro de defesa. 
PAROLLES -  tudo intil, que o homem assenta diante de vs o acampamento, dispara suas minas e 
vos far ir pelos ares. 
HELENA - O cu nos preserve a virgindade contra mineiros e exploses. No haver artifcio militar que 
permita  virgindade jogar os homens pelos ares? 
PAROLLES - Quanto mais depressa cair a virgindade, com tanto maior rapidez ir o homem pelos ares. 
Mas quando recair na brecha que vs mesmos fizestes, j tereis perdida a cidade. No h medida poltica 
na repblica da natureza capaz de preservar a virgindade. Sua perda  de utilidade para a populao. No 
h virgem que no houvesse nascido de uma virgindade perdida.  do metal de que fostes feita que 
procedem todas as virgens; perdida uma vez a virgindade, poder ser encontrada dez vezes; mas se ficar
muito guardada, estar para sempre perdida. No h companhia mais fria do que ela. Fora, pois, com a 
virgindade! 
HELENA - Pretendo conserv-la por algum tempo, ainda que venha a morrer virgem. 
PAROLLES - A esse respeito no h muito o que dizer; vai contra a lei da natureza. Tomar o partido da 
virgindade  acusar a prpria me, o que constitui flagrante desobedincia. A virgem  igual ao indivduo 
que se enforca; a virgindade se suicida, e deveria ser enterrada nas estradas, longe dos lugares 
santificados, tal como se faz com os desesperados, que procedem contra a natureza. A virgindade procria 
gusanos, como o queijo, gasta-se at  casca e morre devorando o prprio estmago. Alm do mais,  
rabugenta, ociosa, altiva e composta exclusivamente de egosmo, que  o pecado mais condenado nos 
mandamentos. No a conserveis, que s tereis a perder. Fora com ela! Dentro de um ano ter duplicado, 
o que j  um juro aprecivel, sem que fique ressentido o capital. Fora com ela! 
HELENA - Como fazer, senhor, para perd-la de acordo com o prprio gosto? 
PAROLLES - Deixai-me refletir... No h jeito, seno sofrer para ser agradvel a quem se desagrada 
dela.  mercadoria que perde o brilho quando fica muito tempo guardada. Desembaraai-vos dela, 
enquanto pode ser vendida; aproveitai a disposio dos compradores. A virgindade  como um velho 
corteso de chapu fora da moda e roupagem rica, mas cada em desuso, tal como se d com os broches e 
palitos, que j tiveram sua poca. Ficar melhor vossa tmara no pastel ou no caldo do que nas faces. 
Vossa virgindade, vossa velha virgindade  tal qual pra murcha da Frana: de aspecto e gosto 
insuportveis. Pudera! Se no tem seiva! J foi gostosa; mas presentemente no passa de uma pra 
murcha. Estou de partida para a corte; quereis alguma coisa de l? 
HELENA - Da virgindade, nada. L vai achar teu amo apaixonadas sem conta: me, amante, uma 
inimiga, uma amiga, uma fnix, diretora, uma guia, uma deusa, uma rainha, conselheira, traidora, 
apaixonada; sua humilde ambio, alta humildade, concrdia dissonante, desacordo agradvel de ouvir, 
sua lealdade, seu doce azar e um mundo de afilhados graciosos e travessos, que Cupido deixa ainda mais 
falantes. Mas agora vai ele... Nem sei mesmo o que vai ser. Que Deus o ampare. A corte  grande escola, 
e ele  um... 
PAROLLES - Um qu? 
HELENA - Que eu quero bem.  pena. 
PAROLLES - Pena por qu? 
HELENA - Por no nos ser possvel dar um corpo sensvel aos desejos, por de bero sermos baixos e 
fadadas por humildes astros a formular to-s desejos que no se concretizam. Poderamos, ento, chegar 
at nossos amigos e lhes sentir o que pensamos, o que no nos enseja, de outro modo, nem 
agradecimentos. 
(Entra um pajem.) 
PAJEM - Monsieur Parolles, meu amo vos mandou chamar. 
PAROLLES - Adeus, pequena Helena; se no me esquecer, na corte pensarei em ti. 
HELENA - Monsieur Parolles, nascestes sob a influncia de um planeta caridoso.
PAROLLES - Sob a influncia de Marte. 
HELENA - Foi o que sempre pensei: debaixo de Marte. 
PAROLLES - Por que debaixo? 
HELENA - As guerras vos trazem tanto por baixo, que necessariamente devereis ter nascido debaixo de 
Marte. 
PAROLLES - Quando ele predominava no firmamento. 
HELENA - Seria prefervel dizer: quando estava em retirada. 
PAROLLES - Que vos leva a pensar dessa maneira? 
HELENA - Porque quando vos bateis, recuais sempre. 
PAROLLES - Para obter vantagem. 
HELENA - O mesmo se d na fuga, quando o medo aconselha a salvao. A combinao resultante de 
vossa virtude e de vosso medo  uma virtude de boas asas, que vai muito bem com vosso todo. 
PAROLLES - As preocupaes me assoberbam de tal modo, que no me do vagar para te dar uma 
resposta espirituosa. Voltarei como corteso perfeito; ento, os meus conhecimentos serviro para te 
naturalizar, no caso, bem entendido, de seres suscetvel de receber conselhos de um corteso e de 
compreender o que te comunicar a prudncia. Caso contrrio, morrers de ingratido, para seres 
arrebatada pela ignorncia. Adeus. Quando tiveres tempo, dize as tuas oraes, e se dele careceres, 
lembra-te dos amigos. Arranja um bom marido e comporta-te com relao a ele como ele se comportar 
contigo. E com isto, adeus. 
(Sai.) 
HELENA - Em ns, por vezes, se acha a medicina que em vo ao cu pedimos. A divina Providncia nos 
deu livre alvedrio, s se opondo com todo o poderio aos nossos lentos planos, quando escravos nos 
revelamos e no agir ignavos. Que poder meu amor faz subir tanto, que me abre os olhos e em mim cria o 
espanto? As maiores distncias do destino vence a natura em tempo pequeno, fazendo que num beijo se 
congrace quanto apartava obstculo falace. Irrealizvel s parece o plano mais ousado e fator de 
desengano, para quem pensa muito e considera que o que nunca se deu  v quimera. Acaso j deixou de 
ser amada quem no elogiar-se no ficou parada? Essa doena do rei... Ser loucura; mas, decidida, 
atiro-me  aventura. 
(Sai.) 
Cena II 
Paris. Um quarto no palcio do rei. Toque de clarins. Entra o Rei de Frana, com cartas na mo; 
nobres e pessoas do sqito. 
REI - Esto engalfinhados os sienenses e os florentinos; com igual fortuna, tm ficado at agora; 
bravamente lutam de parte a parte. 
PRIMEIRO NOBRE -  o que nos dizem.
REI - E  muito crvel. A certeza temo-la de nosso primo de ustria, com a notcia de que logo viro os 
florentinos pedir-nos pronto auxlio. Antecipando nossa resoluo, o caro amigo manifesta o desejo de 
recusa formal de nossa parte. 
PRIMEIRO NOBRE - Sua grande dedicao a Vossa Majestade, aliada ao saber prprio, lhe asseguram, 
por certo,  sugesto boa acolhida. 
REI - Decidiu-nos, de fato. Os florentinos recusada tero sua requesta antes de a formularem. Mas os 
nossos fidalgos que quiserem ver a guerra da Toscana, com toda a liberdade podero escolher qualquer 
partido. 
SEGUNDO NOBRE - Boa escola, decerto, para os moos que tanto anseiam por aes hericas. 
REI - Quem  que vem ai? 
(Entram Bertram Lafeu e Parolles.) 
PRIMEIRO NOBRE -  o jovem Conde de Rossilho, Bertram, meu bom senhor. 
REI - Jovem, tu te pareces com teu pai. A natureza liberal, mostrando-se nesse particular mais cautelosa 
do que apressada, soube dar-te forma. Possas herdar, tambm, as qualidades de teu bom pai. Paris te 
acolhe alegre. 
BERTRAM - Meus agradecimentos e meus prstimos so de Vossa Grandeza. 
REI - Desejara ter a sade prstina de quando, ligado com teu pai pela amizade, na vida militar nos 
estreamos. Conhecia ele, como poucos, a arte militar de seu tempo, tendo sido discpulo de bravos. 
Muitos anos conseguiu resistir; mas a velhice disforme em ns se insinuou, tirando-nos, finalmente, da 
lia. Falar nele me faz ficar mais jovem. Possua na mocidade o esprito brilhante que eu noto nos 
rapazes da nobreza que me cerca. Contudo, por mais que estes procurem gracejar, suas pilhrias, no 
percebidas por ningum, retornam para eles prprios, sem que seus autores disfarar possam suas 
sutilezas com as roupagens da honra. Era um perfeito corteso: nem desdm nem azedume na altivez 
revelava e na finura. Se tal aconteceu algumas vezes, foi contra seus iguais. A honra, nessa hora, relgio 
de si prpria, lhe mostrava o minuto preciso em que foroso lhe era manifestar-se obedecendo sem 
detena ao ponteiro a mo robusta. Os pequenos tratava como seres de classe diferente, permitindo que 
sua fronde altiva se inclinasse para a planura deles, com o que a todos orgulhosos deixava da humildade, 
por se tornar humilde em seus encmios. Aos tempos jovens de hoje falta um homem como esse, para 
exemplo, o que viria nos demonstrar que para trs andamos. 
BERTRAM - Sua memria, majestade, brilha com mais intensidade em vosso encmio do que no seu 
sepulcro; nem a prpria lpide tumular to alto o exala quanto vossas palavras. 
REI - Quem me dera que com ele me achasse! Costumava dizer - S me parece que ainda o ouo. Suas 
palavras de ouro, ele as poupava; no as jogava  toa nas orelhas, mas enxertava-as para que, com o 
tempo, viessem a criar razes e dar frutos. - "No desejo viver" - assim sua boa melancolia, s vezes, se 
expressava, no ltimo ato, ao findar o passatempo, quando tudo acabava. - "No desejo viver", dizer sofa, 
"quando  minha lmpada faltar leo, para ver-me reduzido a morro da gente moa, cujo leviano 
esprito desdenha quanto no seja novo, e que de idias muda como de roupa, pois com a moda pauta a 
prpria constncia transitria". Era a isso que aspirava. Eu, no seu rasto, desejo o mesmo. J que mel e 
cera no trago para casa, preferira ser retirado logo da colmeia, para ceder o posto a outros obreiros.
SEGUNDO NOBRE - Estima-vos o povo, majestade. Os que vos desconhecem, vossa falta sentiro mais 
que todos. 
REI - Sim, ocupo um lugar; sei disso. Conde, h quanto tempo faleceu o mdico de vosso pai? Gozava de 
alto nome. 
BERTRAM - H seis meses, senhor. 
REI - Se ainda vivesse, poderia tentar uma experincia... Dai-me o brao... Os demais me enfraqueceram 
com tantos tratamentos. Ora podem a natureza e as doenas  vontade decidir do meu caso. Sois 
bem-vindo, conde; meu filho no  mais caro. 
BERTRAM - Sou muito agradecido a Vossa Graa. 
(Saem. Clarins.) 
Cena III 
Rossilho. Um quarto no palcio da condessa. Entram a condessa, o intendente e o bobo. 
CONDESSA - Agora posso ouvir-vos. Que dizeis dessa senhorita? 
INTENDENTE - Desejaria, minha senhora, que o zelo revelado por mim na execuo de vossos desejos 
fosse registrado no calendrio de meus servios anteriores, porque quando ns prprios os publicamos, 
ferimos a modstia e embaamos a candura de nosso merecimento. 
CONDESSA - Que faz este sujeito aqui? Fora daqui, maroto! No quero dar crdito a todas as queixas 
que me fazem de vs. Sou muito lerda para tanto, porque sei perfeitamente que no careceis de loucura, 
para conceb-las, nem de habilidade, para p-las em prtica. 
109 BOBO - Como no deveis ignorar, minha senhora, eu no passo de um pobre-diabo. 
CONDESSA - Bom. 
BOBO - No, minha senhora; no  bom que eu seja pobre, conquanto muitos ricos tenham ido parar no 
inferno. Mas se eu puder alcanar as boas graas de Vossa Senhoria no sentido de me ajudar a tomar 
estado, eu e Isbel faremos o que for possvel. 
CONDESSA - Ests querendo tornar-te mendigo? 
BOBO - Mendigo de vossa boa vontade para este caso. 
CONDESSA - Que caso? 
BOBO - Meu caso e de Isbel. Servio no  herana. Estou convencido de que no chegarei a alcanar as 
bnos de Deus, enquanto no vir a minha prole, porque, como diz o povo, os filhos so como bnos 
de Deus. 
CONDESSA - D-me as tuas razes de quereres casar. 
BOBO -  o meu corpo que o deseja, minha senhora. Sou arrastado pela carne, e quando o diabo puxa, a 
gente no pode resistir.
CONDESSA - So essas todas as razes de Vossa Senhoria? 
BOBO - Para dizer toda a verdade, minha senhora, poderia aduzir outras razes to pias quanto essas. 
CONDESSA - Poderia o mundo tomar conhecimento delas? 
BOBO - At agora, minha senhora, eu tenho sido uma criatura pecadora, como vs e todos os seres de 
carne e sangue. Da a razo de querer casar, para poder arrepender-me. 
CONDESSA - Mais do casamento do que dos pecados. 
BOBO - Careo de amigos, minha senhora, e espero adquirir alguns por intermdio de minha mulher. 
CONDESSA - Amigos dessa espcie so inimigos, tolo. 
BOBO - Nessa questo de bons amigos, minha senhora, no sois bastantemente profunda, porque os 
marotos iro fazer o que para mim j for trabalho. Quem lavra a minha terra poupa-me os bois e me 
enseja vagar para a colheita; se faz de mim cabro, fao dele meu escravo. Quem consola minha mulher, 
cuida do meu corpo e do meu sangue; quem cuida do meu corpo e do meu sangue, teu amor ao meu 
corpo e ao meu sangue, e quem tem amor a meu corpo e a meu sangue  meu amigo. Logo, quem beija 
minha mulher  meu amigo. Se os homens se contentassem com ser o que so, ningum teria medo de 
casar. O jovem e puritano Charbon e o velho papista Poysam, por mais discordantes que a religio lhes 
deixe os coraes, tm as cabeas do mesmo feitio: podem dar marradas com os cornos to bem como 
qualquer bode do rebanho. 
CONDESSA - Nunca deixars de ser um boca-suja e maldizente? 
BOBO - Profeta, minha senhora,  o que eu sou. S digo a verdade nua e crua. Antiga balada eu canto, 
que os homens acharo certa: o casamento  destino, o cuco est sempre alerta. 
CONDESSA - Ide embora, senhor; sobre isso, conversaremos melhor noutra ocasio. 
INTENDENTE - Se julgardes conveniente, minha senhora, ele poder chamar Helena.  a respeito dela 
que pretendo falar-vos. 
CONDESSA - Maroto, vai dizer a minha dama de companhia que desejo falar-lhe. Refiro-me a Helena. 
BOBO - Foi essa a causa, disse ela, de os gregos queimarem Tria? Oh, que tolice! Era Helena de 
Pramo a melhor jia? Assim falando, suspira; assim falando, suspira e diz profunda sentena: se em 
nove ms, uma  boa, se em nove ms, uma  boa, uma em dez tudo compensa. 
CONDESSA - Como! S uma boa entre dez? Ests a adulterar a balada, maroto. 
BOBO - Uma mulher entre dez, minha senhora.  assim que eu purifico a balada. Assim servisse Deus o 
mundo todos os anos, que eu no teria de que me queixar do dzimo das mulheres, no caso de ser eu o 
proco. Se nos nascesse uma mulher boa por cada cometa ou cada tremor de terra, a loteria s teria a 
lucrar; mas primeiro o homem arrancar o prprio corao, sem que encontre uma nessas condies. 
CONDESSA - Ide logo, senhor velhaco, e fazei o que vos ordenei. 
BOBO - Ser a gente obrigado a obedecer a uma mulher, sem que da resulte nenhum mal! Embora a 
honestidade no seja puritana, no causar mal nenhum; por a sobrepeliz da humanidade sobre as vestes
negras de um corao inflado. J vou, j vou!  para dizer a Helena que venha at aqui. 
(Sai) 
CONDESSA - Agora podeis falar. 
INTENDENTE - Eu sei, minha senhora, que dedicais grande afeio a vossa dama de companhia. 
CONDESSA - Com efeito; seu pai ma confiou ao morrer. Mas por seus prprios mritos, sem outras 
recomendaes, ela teria direito  afeio que lhe consagro. Devo-lhe mais do que o que lhe pago e lhe 
pagarei mais do que o que ela vier a exigir de mim. 
INTENDENTE - Recentemente, minha senhora, penso que estive mais perto dela do que ela teria 
desejado. Achava-se s e falava para os prprios ouvidos, sem suspeitar que ouvidos estranhos pudessem 
escutar o que ela dizia. O assunto de seu monlogo era o amor que ela dedica a vosso filho. A Fortuna, 
dizia, no era deusa, pois havia criado to grande abismo entre a sua condio e a dele; o Amor no era 
deus, por no usar do seu poder, a no ser quando as qualidades se encontram em igual nvel; Diana, 
tambm, no era rainha das virgens, pois permitia que uma de suas pobres ninfas fosse surpreendida sem 
possibilidade de socorro no primeiro assalto nem, posteriormente, de resgate. Tudo isso ela proferia num 
tom do mais amargo queixume, como eu nunca ouvira de nenhuma donzela. Por isso, julguei do meu 
dever vos pr a par do que h, porque, no caso de alguma desgraa,  necessrio saberdes o que se passa. 
CONDESSA - Desincumbistes-vos de vosso recado com honestidade; sede discreto nesse particular, no 
conversando com ningum a esse respeito. Alguns indcios j me tinham levado a pensar nisso; mas de 
tal modo faziam esses indcios oscilar os pratos da balana, que eu no podia crer nem duvidar. 
Deixai-me, por obsquio. Guardai no peito esse segredo. Agradeo-vos de corao a diligncia. Ainda 
voltarei a vos falar sobre isso. 
(Sai o intendente. Entra Helena.) 
Quando jovem, tambm passei por isso. A natureza  assim; esses espinhos inseparveis so da rosa em 
vio. A muito o sangue obriga em seus caminhos. A natureza claudicar no h de, onde em paixes estua 
a mocidade. Nossos erros de ento, para ns todas, virtudes eram de acabar em bodas. O olhar  de quem 
sofre;  o que lhe noto. 
HELENA - Senhora, que mandais? 
CONDESSA - Como sabeis, Helena, me vos sou. 
HELENA - Senhora minha. 
CONDESSA - Foi me que eu disse. E por que no? Dizendo "me", parece que vistes uma serpe. Por 
que esse nome tanto vos assusta? Sou vossa me, repito, e vos incluo entre os seres nascidos deste ventre. 
A adoo a apostar com a natureza por vezes se tem visto, e de semente peregrina nascer galho excelente. 
Dores maternas nunca me custastes. Graas a Deus, menina! Acaso sentes que o sangue se te esfria, 
quando me ouves dizer que sou tua me? Por que motivo te cerca os olhos essa nncia doente das 
lgrimas, essa ris matizada? To somente por seres minha filha? 
HELENA - Vossa filha no sou. 
CONDESSA - Mas j vos disse que vos sou me.
HELENA - Perdo, minha senhora; mas meu irmo no pode ser o Conde de Rossilho. Meu nome  
muito humilde; o dele  da nobreza. Ele meu amo ser, caro senhor. Vassala fida dele hei de ser enquanto 
tiver vida. Irmo meu no ser. 
CONDESSA - Nem eu me vossa? 
HELENA - Sois minha me, senhora. Ah, se, realmente - sem que me fosse irmo vosso alto filho - 
fsseis vs minha me! Se de ns ambos fsseis me! Galardo mais elevado, nem mesmo o cu eu 
desejar pudera. Mas sendo eu vossa filha, haver jeito de no ser irm dele por direito? 
CONDESSA - Sim, Helena, podeis ser minha nora. Deus permita que aceiteis essa hiptese. Esses nomes 
de me e sogra o pulso vos alteram. Por que essa palidez? Minhas suspeitas se confirmam. Percebo ora o 
mistrio de vossa solido e a fonte encontro dessas freqentes lgrimas.  claro: amais meu filho. Cora a 
hipocrisia, diante do que a paixo por ti proclama, de me dizer que no. S, pois, sincera: dize-me que 
acertei, porque essas faces contam uma para outra o que se passa, e com tanta clareza os olhos lem em 
tuas atitudes, que o proclamam, sem que o queiras, com sua fala prpria. No fosse essa culposa e 
infernal teima que a lngua te reprime, poder-se-ia suspeitar a verdade. Dize:  isso? Se for assim, um n 
bem firme deste; caso contrrio, jura-o. Neste instante, s desejo que me uses de franqueza, para que o 
cu me inspire sobre o modo de te poder valer. S, pois, sincera. 
HELENA - Perdo, minha senhora. 
CONDESSA - Amais meu filho? 
HELENA - No lhe tendes amor, digna senhora? 
CONDESSA - No me fujas do ponto, que meu ttulo de afeio para o mundo todo  vlido. Vamos, 
vamos! Revela-me o que sentes, que tua inquietao j disse tudo. 
HELENA - J que insistis, confesso aqui, de joelhos diante de vs e do alto cu, que acima de vs e 
abaixo do alto cu eu amo vosso filho. Pobres foram meus pais, porm honestos; assim  meu amor. No 
vos zangueis, que do fato de ser por mim amado, mal nenhum lhe advir. No o persigo com nenhuma 
insistncia presunosa, nem desejo alcan-lo sem que tenha chegado a merec-lo, muito embora no 
saiba como merec-lo possa. Sei que amo em vo, e inutilmente luto contra toda esperana. Apesar disso, 
nesse crivo capcioso e insustentvel no paro nunca de deitar as guas do meu amor, sem que jamais se 
esgotem, porque a perd-las venha sem descanso. Como Indiana, portanto, persistente na minha iluso 
pia, o sol adoro que me olha sem tomar conhecimento de seu humilde crente. Minha cara senhora, que 
vosso dio no castigue meu amor por amar a quem amais. Se vs, acaso - cujas cs honradas so penhor 
de virtuosa mocidade - vos incendiastes em to pura flama e tivestes to castas esperanas, unificando, 
assim, o Amor e Diana: apiedai-vos, ento, de uma coitada que a emprestar de contnuo pe o estudo 
onde venha, afinal, a perder tudo, que no tenta encontrar o que procura e, qual enigma, vive a morte 
pura. 
CONDESSA - No fizeste a inteno, recentemente, de ir a Paris? 
HELENA - Senhora, sim. 
CONDESSA - S franca: com que intuito? 
HELENA - Direi toda a verdade, jurando pela Graa celestial. Como sabeis, meu pai deixou-me algumas
frmulas de eficincia comprovada, que seus conhecimentos muito vastos e a manifesta prtica 
apontavam como infalveis. Ao morrer deixou-mas sob o maior sigilo, como notas de intrnseco valor 
muito mais alto do que nelas notar se poderia. H uma receita entre essas, de um remdio muito 
experimentado para os males desesperados de que o rei se fina. 
CONDESSA -  esse o motivo que vos leva  corte? Sede franca. 
HELENA - Milorde, vosso filho, me fez pensar no caso. No fora isso, Paris, a medicina, o rei ausentes 
teriam sempre estado das conversas que a ss comigo mesma s vezes tenho. 
CONDESSA - Mas Helena, pensais que se chegardes a oferecer vosso suposto auxlio, h de aceit-lo o 
rei? Ele e seus mdicos esto de acordo nisto: ele, que mdico nenhum pode cur-lo; eles, que a doena 
do rei no ter cura. Ser crvel que eles revelem confiana numa donzela pobre sem nenhum preparo, 
quando as escolas, gastas as doutrinas, o perigo a si mesmo abandonaram? 
HELENA - Tenho o pressentimento - mais potente do que a arte de meu pai, que foi famoso em sua 
profisso - de que essa frmula de efeito comprovado vai servir-me como herana abenoada pelos astros 
mais felizes do cu. Se me consente Vossa Honra permisso para a aventura, arriscarei a vida nessa cura, 
em dia e hora marcados. 
CONDESSA - Estais bem certa? 
HELENA - Sei o que estou dizendo. 
CONDESSA - Pois que seja! Dou-te o consentimento e, de crescena, toda a minha afeio, recursos, 
gente para seguir contigo, e meus saudares aos amigos da corte. Em casa fico, para pedir a Deus que te 
auxilie. Parte amanh com a maior certeza de que contas comigo nessa empresa. 
(Saem.) 
ATO II 
Cena I 
Paris. Um quarto no palcio do rei. 
Clarins. Entra o rei com vrios fidalgos moos, que se despedem para a guerra de Florena; Bertram, 
Parolles e pessoas do sqito. 
REI - Jovens fidalgos, passai bem; que a vossa disposio guerreira se mantenha. Adeus, tambm, 
senhores. O conselho servir para todos. Se ganhardes, dobrar de valor a recompensa, bastando para os 
dois. 
PRIMEIRO NOBRE - O que almejamos, ao voltarmos da guerra como bravos,  encontrar Vossa Graa 
com sade. 
REI - No,  impossvel, posto se me negue o corao a confessar que abrigo concede ao mal que me 
bloqueia a vida. Adeus, jovens senhores; sede sempre, quer eu viva, quer morra, filhos dignos de dignos 
pais franceses. Que a alta Itlia - cuja prole mirrada herdou somente a decadncia do ltimo governo - 
possa ver que no ides como simples cortejadores da honra, mas ansiosos por despos-la, e que levais a 
cabo quanto intentais, onde os mais bravos tremem, porque muito alto a Fama vos consagre. Tomo a
dizer: adeus. 
SEGUNDO NOBRE - Fique a sade sempre s ordens de Vossa Majestade. 
REI - As moas italianas... Cautelai-vos! Dizem que ns, franceses, no sabemos negar o que elas 
pedem. Prisioneiros no vos torneis, portanto, antes da guerra. 
AMBOS OS NOBRES - No corao guardamos esse aviso. 
REI - Adeus. Vinde comigo. 
(Sai amparado.) 
PRIMEIRO NOBRE - Oh! No seguir conosco o nobre conde! 
PAROLLES - No cabe culpa alguma ao cavalheiro. 
SEGUNDO NOBRE - Oh! Como so gloriosas essas guerras! 
PAROLLES - Admirveis! J estive nessas guerras. 
BERTRAM - Tenho ordem de ficar. O mesmo lema de sempre: "s muito moo" " cedo ainda" "No 
ano vindoiro". 
PAROLLES - Se te pede o peito, meu rapaz, foge logo com coragem. 
BERTRAM - Terei de aqui ficar, na qualidade de pajem de senhoras, os sapatos a gastar nestas pedras, 
at vermos toda a honra despendida, sem que sobre outra espada a no ser para bailados. Pelo cu, vou 
fugir! 
PRIMEIRO NOBRE - Honroso feito fora essa fuga. 
PAROLLES - Fazei isso, conde. 
SEGUNDO NOBRE - Sou nisso vosso cmplice. At logo. 
BERTRAM - De tal modo nos identificamos nesse particular, que nossa separao mais parece um corpo 
submetido a tratos. 
PRIMEIRO NOBRE -Adeus, capito. 
SEGUNDO NOBRE - Meu caro monsieur Parolles! 
PAROLLES - Nobres heris, minha espada e as vossas so parentas: iguais fascas, brilho idntico. Uma 
palavra, meus valentes: no regimento dos Spirii haveis de encontrar um Capito Spurio com uma cicatriz, 
emblema da guerra, aqui na face esquerda. Pois foi cavada com a espada que aqui vedes. Comunicai-lhe 
que eu ainda vivo e tomai nota do que ele disser de mim. 
SEGUNDO NOBRE - Assim o faremos, nobre capito. 
(Saem os nobres.) 
PAROLLES - Que Marte se vos mostre afeioado, por serdes novio. Que pretendeis fazer? 
BERTRAM - Ficar. O rei...
(Volta o rei. Bertram e Parolles se afastam.) 
PAROLLES - Sede mais cerimonioso com esses nobres senhores; fechastes-vos nos limites de uma 
despedida por demais fria.  preciso ser mais expansivo com eles, por serem a nata de seu tempo, o 
modelo do andar, do comer, do conversar, e por se moverem sob o influxo dos mais reconhecidos astros. 
Ainda que fosse o diabo que marcasse o compasso, deveriam ser seguidos. Correi atrs deles e 
despedi-vos com mais formalidades. 
BERTRAM -  o que vou fazer. 
PAROLLES - Rapazes de valor! Com o tempo, as suas espadas se tornaro irresistveis. 
(Saem Bertram e Parolles. Entra Lafeu.) 
LAFEU (ajoelhando-se) - Desculpai-me, senhor, e s minhas novas. 
REI - Teu prmio  levantares-te depressa. 
LAFEU - Vedes, dessa maneira, uma pessoa que comprou seu perdo. S desejara, milorde, que 
estivsseis de joelho diante de mim, para que a um meu aceno vos levantsseis. 
REI - Tambm eu quisera isso, que, assim, te quebraria o casco, para pedir, depois, que me perdosseis. 
LAFEU - De cruz, no ? Mas, meu gracioso lorde, com licena: quereis ficar curado de vossa 
enfermidade? 
REI - No. 
LAFEU -  certo? No quereis uvas, minha real raposa? Pois havereis de quer-las, caso minha raposa 
real pudesse minhas nobres uvas pegar. Vi uma doutora capaz de insuflar vida at nas pedras, de forar 
um rochedo a andar depressa e vos fazer danar uma canria com fogo  desempeno. Seu contacto 
ressuscitar faria o Rei Pepino. Mais, ainda: obrigara ao prprio grande Carlos Magno a tomar da pena e 
versos de amor para ela enviar. 
REI - Para "ela!" Como? 
LAFEU - Uma doutora,  claro. J na corte se acha, milorde, se quiserdes v-la. Por minha honra e minha 
f, no caso de eu poder expressar os pensamentos com seriedade, aps esse preldio: Falei com uma 
donzela, cuja idade, sabedoria, profisso, firmeza de carter, perplexo me deixaram mais do que fora de 
esperar de minha fraqueza irremedivel. Quereis v-la -  o seu desejo - e discorrer ouvi-la? Depois, ride 
de mim quanto quiserdes. 
REI - Meu bom Lafeu, trazei-me esse milagre, para, juntos, mostrarmos nosso espanto ou fazermos que o 
teu venha a acabar-se to-s por te espantares de ti prprio. 
LAFEU - Ento vos servirei, sem perder tempo. 
(Sai.) 
REI - Seus nadas sempre tm prlogos grandes. 
(Volta Lafeu com Helena.) 
LAFEU - Vinde logo.
REI - Tinha asas sua pressa. 
LAFEU - Vinde logo. Eis aqui Sua Majestade; dizei-lhe o que pensais. Vossa aparncia  de conspirador, 
mas Sua Graa desses conspiradores no se teme. Sou o tio de Cressida; no receio deixar-vos em 
colquio. Passai bem. 
(Sai.) REI - Ento, bela menina, tendes algo a me comunicar? 
HELENA - Sim, Majestade. Sou filha de Gerard de Narbon, que em sua profisso teve alta fama. 
REI - Conheci-o. 
HELENA - Isso vem minha tarefa facilitar. Se o conhecestes, basta. Ao morrer me deixou muitas 
receitas; uma, principalmente, ele avaliava como a mais fina flor de seus estudos, de provada experincia 
a filha amada, tendo pedido que a guardasse como se fosse um terceiro olho, mais precioso para mim do 
que os prprios. Assim fiz. E por ouvir dizer que Vossa Graa sofria dessa doena perniciosa que to alto 
elevou a grande fama de meu querido pai, humildemente vos venho oferecer os meus servios. 
REI - Ns vos agradecemos, rapariga. Mas, de que modo acreditar em cura, se abriram mo do caso 
nossos mdicos mais conspcuos, e toda a Faculdade decidiu que jamais o esforo da arte poder ser 
auxlio  natureza em seu precrio estado? No devemos, por isso, permitir que nosso juzo se deturpe e 
que falsas esperanas nos desviem, a ponto de chegarmos a prostituir a charlates a nossa doena 
irremedivel, degradando nossa grandeza, assim, e nosso crdito, por julgarmos que possa ainda ter cura 
um mal que tanto quanto a vida dura. 
HELENA - O cumprimento do dever me paga de todo o meu trabalho. No insisto nos oferecimentos. S 
imploro de vossos reais conceitos o modesto favor de permitir que me retire. 
REI - Menos no  possvel conceder-te, sem passar por ingrato. Imaginaste socorrer-me, razo de 
agradecer-te como costuma o moribundo a quantos desejam que reviva. Do conjunto da situao 
conheces s uma parte; para o meu mal intil  tua arte. 
HELENA - Se na descrena pondes todo o siso, podereis tentar, sem prejuzo, quanto ora vos proponho. 
O que realiza todas as obras grandes, improvisa muitas vezes os meios, conseguindo com fraca gente 
resultado infindo. As Santas Escrituras nos meninos reconheceram senso onde os rabinos infantis se 
mostraram. De minguante fonte pode jorrar gua abundante, como pde secar um mar profundo, quando 
o milagre os sbios deste mundo tinham por impossvel.  freqente falhar a expectativa mais florente, 
como concretizar-se, quando fria j se achava a esperana em demasia. 
REI - Basta, bela menina; recompensa nenhuma te dar minha descrena, seno to-s palavras. 
HELENA - Desse jeito torna estril um sopro o mais perfeito desgnio. O Ser que sabe quanto passa, no 
se comporta como nossa escassa percepo, que das coisas o que estima  aparncia, to-s, muito por 
cima.  presuno, considerar terrena a ajuda com que o cu de longe acena. Caro senhor, cedei ao meu 
pedido; no de mim, mas do cu tirai partido. Impostora no sou, para valia me atribuir que transcenda a 
mediania. Mas podeis crer-me: livre de impostura ser minha arte e, certa, vossa cura. 
REI - Vejo que tua f no se embaraa. Em quanto tempo sararei?
HELENA - Se a Graa divina me der graa, antes que ao poente duas vezes consiga a reluzente parelha 
conduzir a luz radiosa e Hspero duas vezes na fumosa fmbria a tocha mergulhe sonolenta; antes, ainda, 
de mostrar a lenta ampulheta, por vinte e quatro vezes, aos minutos seus passos descorteses: ficareis 
bom; a dor ter fugido, para afundar de vez no eterno olvido. 
REI - A tal ponto mostrando-te confiada, que arriscas nessa empresa? 
HELENA - Ser chamada de impudente, de baixa e de rameira; ver a honra divulgada por maneira 
vergonhosa em baladas infamantes nome impoluto j no ter, como antes; mais, se for concebvel: 
prematura vir a morte a alcanar pela tortura. 
REI - Parece que uma fora sublimada fala por ti, valendo-se de nada para nos dar de seu poder notcia. 
O que ao senso comum fora estultcia, em tua fala adquire alto sentido. Tua vida  preciosa, pois reunido 
tens em tua pessoa tudo quanto torna o nosso viver digno de encanto: saber, graa, virtude, mocidade, 
quanto a sazo propcia, nessa idade de bom pode ensejar. Tanta confiana indcio  de um saber que 
tudo alcana, se no for de infinito desespero. Assim, cara doutora, com esmero cuida de exercitar a 
medicina, pois se tua dita se mostrar mofina, resultando-me disso a negra morte, para ti no esperes 
melhor sorte. 
HELENA - Se eu no puder, no prazo combinado, cumprir quanto prometo, que meu fado seja morrer, 
porque viver no h de quem revelou to grande pravidade. Mas, se o erro no me der sorte to dura, 
qual vir a ser o galardo da cura? 
REI - Pede-me o que quiseres. 
HELENA - E obt-lo-ei? 
REI - Sim, pelo cu e meu penhor de rei. 
HELENA - Tuas mos reais, ento, dar-me-o o esposo que eu escolher por digno e donairoso, estando 
em ti ceder-mo, sem que medo conceber possas de um projeto tredo, de eu apontar um prncipe da 
Frana, que a tanto o meu querer no se abalana. Jamais imaginei que de futuro pudesse a ti ligar meu 
nome obscuro. No; o vassalo que ora trago em mente, poders conceder-me livremente. 
REI - Eis minha mo, que recusar no h de quanto manifestar tua vontade, depois de me cumprires a 
promessa. Ora o momento de experincia apressa, porque eu, na qualidade de cliente, prometo ser-te em 
tudo obediente. Muito, ainda, desejava perguntar-te; mas com isso a confiana, que tua arte de incio me 
inspirou, no cresceria: como vieste at aqui? E a companhia? S, portanto, bem-vinda e abenoada, sem 
maiores perguntas  chegada. A mo, a! Se tua arte for potente, igualar tua cura o meu presente. 
(Toque de clarins. Saem.) 
Cena II 
Rossilho. Um quarto no palcio da condessa. Entram a condessa e o bobo. 
CONDESSA - Vinde c, senhor; desejo pr vossa educao  prova. 
BOBO - Com isso vereis que estou muito bem alimentado, mas pessimamente educado, o que, para a 
corte,  o suficiente.
CONDESSA - Para a corte? Que lugar, ento, vos merece considerao, e vos referis  corte com to 
grande desprezo? "Para a corte  o suficiente!" 
BOBO - Em verdade, minha senhora, quem recebe boas maneiras de Deus, pode perfeitamente 
desembaraar-se delas na corte. Quem no souber fazer um rapap, tirar o chapu, beijar a mo e no 
dizer palavra, carece de pernas, de mo, de boca e de chapu. Uma pessoa nessas condies, para falar 
com maior preciso, no  feita para a corte. Mas no que me diz respeito, tenho uma resposta que servir 
para todos os homens. 
CONDESSA - Para servir a todas as perguntas, deve ser uma resposta liberal. 
BOBO -  tal qual cadeira de barbeiro, que serve para todos os assentos: pontudos, redondos, carnudos... 
Para todos, em suma. 
CONDESSA - Vossa resposta vai bem com todas as perguntas? 
BOBO - To bem como uma moeda de dez vintns na mo de um procurador, ou uma coroa francesa na 
de uma prostituta vestida de tafet, ou o junco de Tib no indicador de Tom, ou um filhs na tera-feira 
gorda, a dana mourisca no dia 1. de maio, o prego no seu buraco, os cornos na fronte de quem os 
merece, a megera rilhenta ao lado de algum arruaceiro, os lbios de uma freira na boca de um monge... 
Sim, to bem quanto o chourio na sua pele. 
CONDESSA - Tendes uma resposta - torno a perguntar-vos - to adequada assim para todas as questes? 
BOBO - Desde debaixo do duque at embaixo do inspetor de polcia, ir bem com todas as perguntas. 
CONDESSA - Ento deve ser uma resposta de dimenses monstruosas, para corresponder a todas as 
perguntas. 
BOBO - Para ser sincero, no passar de uma ninharia, para o sbio que souber dizer a verdade. Aqui 
est ela com todos os seus adminculos: perguntai-me se eu sou corteso; nada tereis a perder com a lio 
que eu vos der. 
CONDESSA - Voltar a ser jovem, se isso fosse possvel... Vou ficar suficientemente tola para vos dirigir 
essa pergunta, na esperana de que a resposta me deixe sbia. Por obsquio, senhor, sois corteso? 
BOBO - Oh Deus, senhor! Foi dito muito depressa. Mais perguntas! Mais perguntas! Dirigi-me cem 
perguntas iguais a essa. 
CONDESSA - No passo, meu senhor, de uma humilde amiga vossa, que vos dedica afeio. 
BOBO - Oh Deus, Senhor! Prossegui! Prossegui! No me poupeis. 
CONDESSA - Penso, meu senhor, que no podeis comer nenhum desses pratos caseiros. 
BOBO - Oh Deus, Senhor! Ponde-me  prova, sem cerimnia. 
CONDESSA - Fostes recentemente chibateado, no  verdade? 
BOBO - Oh Deus, Senhor! No me poupeis. 
CONDESSA - Exclamais "Oh Deus, Senhor!" quando estais sendo chibateado e "No me poupeis"?
Realmente, o vosso "Oh Deus, Senhor!" vem muito a ponto com vossa correo. Respondereis com 
muito acerto, se fosseis chibateado. 
BOBO - Nunca tive to pouca sorte com o meu "Oh Deus, Senhor!" Vejo que as coisas podem servir 
para muito tempo, no, porm, para sempre. 
CONDESSA - Como dona de casa esbanjadora, com um bobo, alegre, o tempo estou gastando. 
BOBO - Oh Deus, Senhor! Serviu-me ainda a frase. 
CONDESSA - Basta, senhor! A Helena entregai isto, e dizei-lhe que logo me responda. Lembranas aos 
parentes e a meu filho. A incumbncia  pequena, me parece. 
BOBO - Pequenas, as lembranas para todos. 
CONDESSA - Vossa incumbncia, disse. Compreendestes-me? 
BOBO - Completamente, estarei l primeiro que minhas pernas. 
CONDESSA - Vinde sem delongas. 
(Saem por lados diferentes.) 
Cena III 
Paris. Um quarto no palcio do rei. Entram Bertram, Lafeu e Parolles. 
LAFEU - Dizem que j no h milagres, e a est os nossos filsofos que deixam ordinrias e familiares 
as coisas sobrenaturais e inexplicveis. Da resulta brincarmos com os fenmenos mais terrveis, 
barricando-nos por trs de nosso suposto conhecimento, quando devramos ceder ao medo do 
desconhecido. 
PAROLLES - Realmente,  o maior motivo de admirao de que se teve notcia nestes ltimos tempos. 
BERTRAM - Com efeito. 
LAFEU - Depois de ter ficado abandonado pelos conhecedores da arte... 
PAROLLES -  o que eu digo. 
LAFEU - Por Galeno e Paracelso... 
PAROLLES -  o que eu digo. 
LAFEU - Pelos mais sbios e autnticos doutores... 
PAROLLES -  isso mesmo que eu penso. 
LAFEU - Que o deram por incurvel... 
PAROLLES - Justamente.  tambm o que eu digo. Bela menina, a vista lana em torno. Este grupo de 
jovens da nobreza, solteiros todos, que aqui vs reunidos, faro minha vontade em toda a linha. Poder 
tenho sobre eles, no somente de rei, como de pai. Nomeia um deles. De escolheres qualquer tens 
liberdade; de recusar-te nenhum deles h de.
HELENA - Que o Amor uma virtuosa e bela noiva d a cada um de vs salvo a um somente. 
LAFEU - Era capaz de dar o meu cavalo baio rabo, com todos os arreios, para ter dentes como estes 
rapazes e, como eles, no ter barba no queixo. 
REI - Observa-os bem. So todos da nobreza. 
HELENA - Cavalheiros, valendo-se de mim, restituiu Deus ao rei a sade. 
TODOS - J o soubemos, e ao cu, por isso, agradecidos somos. 
HELENA - Sou uma donzela humilde; toda a minha fortuna  confessar que sou donzela. Se da vontade 
for de Vossa Graa, declaro que estou pronta, embora as faces, coradas de vergonha, me segredem: 
"Coramos, por te veres na premncia de fazer uma escolha; mas se fores recusada, vir cobrir-nos, 
pronta, a palidez da morte, sem que as cores jamais recuperemos". 
REI - S confiante, que ficar de meu amor  parte quem o ousio tiver de recusar-te. 
HELENA - Agora, Diana, o teu altar evito, para cultuar Amor, o deus bendito, a quem dirijo os meus 
suspiros todos. Ouvireis, senhor, o meu pedido? 
PRIMEIRO NOBRE - Sim, e o satisfaria. 
HELENA - Agradecida; nada mais vos direi. 
LAFEU - Preferira ser um dos que vo ser escolhidos, a s tirar o s a vida inteira. 
HELENA - A honra que brilha nesses belos olhos, antes que eu fale, me promete abrolhos. O Amor vos 
ponha vezes dez acima desta a quem sempre teve em desestima. 
SEGUNDO NOBRE - Grato; mais no desejo. 
HELENA - Bom sucesso vos d Amor. Com isso, me despeo. 
LAFEU - Todos a recusam? Se fossem meus filhos, mandaria chibate-los, ou os enviaria para o Turco, a 
fim de fazer deles eunucos. 
HELENA - (ao terceiro nobre) - De vos tomar a mo no mostreis medo; no vos desejo mal; ser 
brinquedo. Deus vos exalce os votos. Feliz sorte vos d Amor na escolha da consorte. 
LAFEU - Esses rapazes so de gelo; nenhum a quer. Por certo todos so bastardos ingleses, que nenhum 
francs os teria nunca gerado. 
HELENA - Sois moo, bom demais e de alto brilho porque de mim possais vir a obter filho. 
QUARTO NOBRE - No sou desse pensar, bela menina. 
LAFEU - Ainda est faltando uma uva. Sei, com segurana que teu pai bebia vinho. Mas se no fores um 
asno, no passo de um meninote de quatorze anos; h muito que te conheo. 
HELENA (a Bertram) - Se vos tomasse a mo, fora atrevida. Eu  que a vs me entrego, enquanto vida 
tiver, para me guiardes. Eis o esposo.
REI - Jovem Bertram, tomai-a;  vossa esposa. 
BERTRAM - Minha mulher, senhor? A Vossa Alteza suplico me deixar nesses assuntos valer dos 
prprios olhos. 
REI - No soubeste, jovem Bertram, quanto ela por mim fez? 
BERTRAM - Sim, meu senhor; mas nunca saber pude que devo despos-la. 
REI - No ignoras que, graas a ela, me livrei da morte. 
BERTRAM - Mas segue-se, senhor, que minha queda compense vossa cura? Sim, conheo-a; foi 
educada  custa de meu pai. Com a filha me casar de um pobre mdico! Prefiro que a vergonha me 
acabrunhe. 
REI - desdenhas nela o estado, to-somente, que em mim est prover.  muito estranho que o nosso 
sangue, quando misturado com o das outras pessoas, igual peso, cor e temperatura nos revele. mas tanta 
diferena gere em todos. Se virtuosa ela for e a desprezares. por ser filha, to-s, de um pobre mdico, a 
virtude desprezas por um nome. No procedas assim. Quando a virtude mora em lugar humilde, v-se 
amide deixar ela o lugar enobrecido. Mas onde falta, embora haja apelido da mais alta nobreza, a honra 
 vazia. Somente o bem  em si de alta valia. O mal  mal. As coisas to-somente valem pelo que so, 
independente dos ttulos que tenham. Em beleza, mocidade e saber a natureza fez dela em tudo primorosa 
herdeira, dotando-a de nobreza verdadeira. Zomba da honra quem diz que provm dela sem com ela 
parecer-se. A honra singela vale mais, quando vem de nosso atos, do que dos avs, embora gratos. A 
palavra honra  escravo desonrado sobre cada sepulcro, um mutilado trofu na sepultura, que, freqente, 
se cala porque o nome resplendente como mortalha venha a ter a poeira e o merecido olvido. Verdadeira 
resposta me concede. Se possvel te for amar a jovem - coisa incrvel to grande indeciso! - farei o resto. 
Ela e sua virtude manifesto dote constituiro; ouro e nobreza de minha parte lhe daro grandeza. 
BERTRAM - Am-la, -me impossvel, nem pretendo esforar-me para isso. 
REI - A ti te ofendes, mostrando-te indeciso nessa escolha. 
HELENA - Alegra-me saber que estais curado, senhor; deixai o resto. 
REI - Minha honra est em jogo; urge valer-me de todo o meu poder. Vamos, aceita-a, moo orgulhoso e 
ftil. No mereces ser galardoado com to grande prmio. Com teu desdm repeles, a um s tempo, meu 
amor e seu mrito. No sonhas que se nos colocssemos no prato mais leve da balana em que ela se 
acha, s traves te jogramos? Ignoras que depende de ns a honra plantar-te onde nos aprouver que a 
crescer venha? Refreia o orgulho e nosso alvitre acata, que em teu bem, s, se esfora. No ds crdito a 
esse desdm, mas faze que trabalhe para tua fortuna a vassalagem a que o dever te obriga e nossa fora. 
Se no, de nossa graa te afastamos para sempre, atirando-te  vertigem da mocidade e aos erros da 
tolice, e o dio e a vingana sobre ti lanamos em nome da justia, sem parcela de piedade. Responde-me 
depressa. 
BERTRAM - Perdo, gracioso rei; a vossos olhos submeto a fantasia. Quando penso no que de honra e 
de estado a um vosso aceno pode nascer, acabo convencendo-me de que esta jovem, que at pouco me 
era to baixa para os altos pensamentos, nos louvores de um rei lucrou de modo que a nobreza alcanou, 
como se nobre, de fato, ela nascesse.
REI - Ento  tua; toma-lhe a mo e faze dela esposa. Comprometo-me a dar-lhe um dote grande, que 
no ser igual ao teu estado, s porque o exceder. 
BERTRM - A mo lhe aceito. 
REI - Que a sorte e o real favor a este contrato sejam sempre propcios. Esta noite celebrada h de ser a 
cerimnia do recente noivado, mas adiamos o banquete solene, porque a vinda dos amigos ausentes 
aguardemos. Ama-a com o mesmo amor que me votares, porque te mostres digno de teus pares. 
(Saem o rei, Bertram, Helena, nobres e squito.) 
LAFEU - Estais me ouvindo, monsieur? Uma palavrinha. 
PAROLLES - Que ordenais, senhor? 
LAFEU - Vosso senhor e amo fez muito bem em se retratar. 
PAROLLES - Retratar-se? Meu senhor? Meu amo? 
LAFEU - Isso mesmo; no falo linguagem de gente? 
PAROLLES - Vossa linguagem  muito dura de se ouvir, e s pode ser compreendida com 
acompanhamento de sangue. Meu amo! 
LAFEU - No pertenceis  companhia do Conde de Rossilho? 
PAROLLES - De qualquer conde, de todos os condes, de toda a gente. 
LAFEU - De toda a gente do conde; mas o amo do conde seria papafina. 
PAROLLES - Sois muito velho, senhor. Que isso vos baste. Sois muito velho. 
LAFEU -  preciso que eu te diga, maroto, que eu sou um homem, o que no chegars a ser nem depois 
de velho. 
PAROLLES - No ouso fazer o que posso fazer bem. 
LAFEU - Depois de duas ceias em tua companhia, tomei-te por um rapaz de alguma inteligncia. De tuas 
viagens fazias um vento tolervel. Poderia passar; mas as bandeirolas e os pavilhes que apresentavas 
contriburam muito para me dissuadir de te considerar navio de grande calado. Agora que te encontrei; 
pouco se me d perder-te de novo. S serves para que te apanhem do cho, e assim mesmo quase no 
compensa o trabalho. 
PAROLLES - Se em tua pessoa no mostrasses a carta de privilgio da antigidade... 
LAFEU - No puxes demasiado pela clera, que isso pode apressar-te o castigo. Se tal acontecer... Deus 
se apiade de ti, galinha choca! E com isso, minha boa janela de rtulas, passa bem. No tenho 
necessidade de abrir-te as folhas, porque vejo atravs de ti. D-me a mo. 
PAROLLES - O senhor me mimoseia com a mais insigne indignidade. 
LAFEU - De todo o corao, que  o que mereces. 
PAROLLES - Nada fiz por merec-la, senhor.
LAFEU - Sim, por minha f; mereces todas as dracmas dessa indignidade. No abaixarei um escrpulo 
sequer. 
PAROLLES - Est bem; procurarei ser mais razovel. 
LAFEU - Que seja isso o mais cedo possvel, porque exalas cheiro justamente do oposto. Se algum dia 
fores amarrado em tua prpria bandeirola e receberes uma coa, percebers o que  ficar orgulhoso do 
prprio cativeiro. s vezes me d vontade de no interromper nossas relaes, ou melhor, o meu 
conhecimento de tua pessoa, para que em caso de apuro pudesse declarar: conheo esse tipo! 
PAROLLES - Submeteis-me, senhor, a um vexame insuportvel. 
LAFEU - Desejaria poder infligir-te penas infernais para toda a eternidade, mas no tenho poder para 
tanto. Contudo, no deixarei de fazer o que a idade me permitir, que  afastar-me de tua pessoa. 
(Sai.) 
PAROLLES - Deixa estar! Tens um filho, que vai pagar-me esses insultos.  preciso ter pacincia, que 
no se pode algemar a circunspeco. Por minha vida, hei de bater-lhe, no caso de o encontrar de jeito, 
embora ele fosse duas vezes um senhor de respeito. Terei tanta considerao com a velhice como... Hei 
de lhe dar uma coa  primeira vez que o encontrar. 
(Volta Lafeu.) 
LAFEU - Maroto, vosso senhor e amo est casado; trago-vos essa novidade. Tendes nova patroa. 
PAROLLES - Suplico sinceramente a Vossa Senhoria parar um pouco com vossos ultrajes. Ele  meu 
bom senhor; mas s considero como meu amo o que est l em cima. 
LAFEU - Quem? Deus? 
PAROLLES - Perfeitamente, senhor. 
LAFEU - O diabo  que  teu amo. Por que pes ligas nos braos? Das mangas pretendes fazer calas? 
Os outros criados andam dessa maneira? Farias melhor se pusesses o assento onde trazes o nariz. Por 
minha honra, se eu fosse mais moo de duas horas apenas, dar-te-ia uma tunda valente. Pareces-me uma 
ofensa universal, em que toda a gente deveria bater. Sou de parecer que foste criado para que todo o 
mundo se exercitasse em tua pessoa. 
PAROLLES - Vosso procedimento, senhor,  duro e imerecido. 
LAFEU - Ide embora, senhor! Fostes castigado na Itlia por haverdes roubado pevides de rom. No 
passais de um vagabundo; no sois um viajante verdadeiro. Mostrais-vos mais insolente com os fidalgos 
e pessoas de respeito do que vos autoriza vossa virtude e a nobreza do vosso nascimento. No mereceis 
que eu vos d nenhum qualificativo, seno to-somente o de velhaco. Deixo-vos sozinho. 
(Sai.) 
PAROLLES - Bem; muito bem. Que seja assim. Bem; muito bem. Deixemos isso oculto por algum 
tempo. 
(Volta Bertram.)
BERTRAM - Perdido! Entregue para sempre s preocupaes! 
PAROLLES - Que aconteceu, meu corao? 
BERTRAM - Muito embora jurado eu tenha ao padre, no quero saber dela. 
PAROLLES - Que acontece, meu corao? 
BERTRAM -  meu Parolles! Acho-me casado! Para a guerra da Toscana prefiro ir, sem jamais subir ao 
tlamo da que hoje  minha esposa. 
PAROLLES - Nossa Frana no passa de um chiqueiro. No merece que ps a calquem de homens.  
guerra!  guerra! 
BERTRAM - Recebi estas cartas de minha me; no sei o que contm. 
PAROLLES - Isso se ver logo. Para a guerra, meu rapaz, para a guerra! A honra no bolso traz escondida 
sempre quem se deixa ficar em casa a acariciar a amada, gastando nos seus braos a energia com que os 
corcovos dominar pudera do ginete de Marte generoso. Para outras terras! De uma estrebaria no passa a 
Frana, e ns, que aqui vivemos, no somos mais do que guas. Para a guerra! 
BERTRAM - Ser assim. Vou mand-la para casa; escreverei a minha me acerca do dio que lhe dedico 
e dos motivos de seguir para a guerra, e ao rei, por carta, direi o que no ouso pessoalmente. O dote 
recebido vai servir-me para os gastos da guerra da Toscana, onde se encontram muitos gentis-homens. 
Com casa escura e esposa detestada, a guerra  brincadeira ou quase nada. 
PAROLLES - Esse capricho vai durar bastante? 
BERTRAM - Vem comigo at o quarto e me aconselha. Mand-la-ei embora com presteza;  guerra irei, 
deixando-a sem tristeza. 
PAROLLES - Quanta bala a zunir! Que estrondo!  duro! Quem casa cedo  assim, no tem futuro. Pela 
guerra abandona-a bravamente. Magoou-te o rei... Coragem! Para a frente! 
(Saem.) 
Cena IV 
O mesmo. Outro quarto no palcio. Entram Helena e o bobo. 
HELENA - Minha me me envia saudares amistosos. Ela est passando bem? 
BOBO - No est bem, mas est com sade. Encontra-se bastante alegre; contudo, no est bem. Mas 
graas sejam dadas, porque ela est passando muito bem, sem que nada lhe falte; mas agora, no vai 
passando bem. 
HELENA - Mas se ela est passando bem, de que sofre, para no estar bem? 
BOBO - O que  certo que tudo lhe corre bem, com exceo de duas coisas. 
HELENA - Quais so elas? 
BOBO - Uma,  por no estar ela no cu, para onde Deus deveria lev-la sem demora; a outra,  por se
encontrar na terra, de onde Deus deveria tir-la o mais depressa possvel. 
(Entra Parolles.) 
PAROLLES - Deus vos abenoe, venturosa dama. 
HELENA - Penso, meu senhor, que conto com vossa boa vontade para a minha boa sorte, pois no? 
PAROLLES - Contais com minhas oraes para que ela vos alcance e para que possais segur-la e entrar 
na posse dela. Ol, maroto! Como vai passando a minha velha senhora? 
BOBO - Se pudsseis ter suas rugas e eu o seu dinheiro, desejaria que ela estivesse como dizeis que est. 
PAROLLES - Mas seu eu no disse nada! 
BOBO - O que vem provar que sois inteligente, porque muita lngua de criado faz vir  luz os podres do 
patro. No dizer nada, no fazer nada, no saber de nada e no ter nada: eis o vosso melhor ttulo, que, 
afinal,  pouco menos de nada. 
PAROLLES - Vai saindo, maroto! 
BOBO - Devereis ter dito, senhor, que eu sou um maroto diante de outro; nestes termos: em minha 
frente no passas de um maroto. Com isso tereis dito a verdade, senhor. 
PAROLLES - Sai! s um bobo espirituoso. Encontrei-te! 
BOBO - Ou vos ensinaram a me encontrar? A busca foi proveitosa, senhor, e  de desejar que encontreis 
em vs mesmo muita tolice, para maior alegria do mundo e incremento da hilaridade. 
PAROLLES - Bom maroto, realmente, e bem nutrido. Senhora, o conde vai partir  noite, para tratar de 
assunto muito urgente. Reconhece, sem dvida, os direitos do amor e os privilgios que podeis reclamar 
para vs. Mas  forado, repito, que a abstinncia ora ele aceita, cujo prolongamento condiciona no 
futuro delcias inefveis. O tempo escuro agora nos castiga para que, muito breve, as horas fiquem 
repletas de alegrias at  borda, e de prazer transbordem. 
HELENA - Alm disso, que mais ele deseja? 
PAROLLES - Que hoje mesmo vos despeais do rei, fazendo ver-lhe que essa resoluo de vs proveio, 
sobre justificardes tanta pressa com razes que julgardes mais plausveis. 
HELENA - Que mais ele me ordena? 
PAROLLES - Que aps terdes alcanado a licena, novas ordens fiqueis dele a aguardar. 
HELENA - Sua vontade em tudo acatarei. 
PAROLLES - Vou dizer-lhe isso. 
HELENA - Muito vos agradeo. Vamos bobo. 
(Saem.)
Cena V 
Outro quarto no mesmo. Entram Lafeu e Bertram. 
LAFEU - Espero que Vossa Senhoria no o tenha na conta de um soldado. 
BERTRAM - Pois no, senhor, de um soldado de comprovada bravura. 
LAFEU - Essas informaes vos vieram dele mesmo. 
BERTRAM - E de testemunhas fidedignas. 
LAFEU - Nesse caso, meu relgio no regula. Tomava essa cotovia por uma calhandra. 
BERTRAM - Posso asseverar-vos, senhor, que ele possui profundos conhecimentos, que vo de par com 
sua valentia. 
LAFEU - Ento eu pequei contra sua experincia e violei as regras de seu valor, sendo a minha situao 
tanto mais perigosa, por no encontrar no corao do que me arrepender. A vem ele. Por obsquio, 
reconciliai-nos, que me esforarei por cultivar essa amizade. 
(Entra Parolles.) 
PAROLLES (a Bertram) - Tudo est sendo providenciado, senhor. 
LAFEU - Por obsquio, senhor, quem  o alfaiate dele? 
PAROLLES - Senhor? 
LAFEU - Oh! Conheo-o perfeitamente. Sim, senhor;  um bom artista, excelente alfaiate. 
BERTRAM ( parte, a Parolles) - Ela foi falar com o rei? 
PAROLLES - Foi. 
BERTRAM - Partir esta noite? 
PAROLLES - Conforme o determinastes. 
BERTRAM - Escrevi vrias cartas, fiz pacotes de todo o meu dinheiro, ordens expressas mandei, porque 
aprontassem bons cavalos... E hoje  noite, ao invs de entrar na posse do leito nupcial, tudo arremato 
antes de comear. 
LAFEU - Um viajante inteligente  sempre bem-vindo ao fim da refeio; mas o que vive a soltar 
mentiras e se vale de uma verdade conhecida para nos impingir mil pataratas, merece ser escutado uma 
vez e batido trs. Deus vos guarde, capito. 
BERTRAM - Houve algum desacordo entre vs e este nobre senhor, monsieur? 
PAROLLES - Ignoro o motivo de haver incorrido no desagrado de Sua Senhoria. 
LAFEU - Saltastes aodadamente para a vasilha, de bota e esporas tal como o bufo que se joga no 
creme, e primeiro vos poreis a correr do que apresentareis razes de a vos encontrardes.
BERTRAM -  possvel, milorde, que o tivsseis compreendido mal. 
LAFEU - O que sempre acontecer, ainda que o venha a encontrar no momento de dizer as oraes. 
Passai bem, milorde, e acreditai no que vos digo: no h miolo nessa casca de noz; esse indivduo tem a 
alma no vesturio. No lhe deis crdito em assunto de importncia. J domestiquei muitos tipos dessa 
espcie e conheo-lhes as manhas. Passai bem, senhor; falei de vs em termos mais lisonjeiros do que 
mereceis de mim ou possais vir a merec-lo. Mas  preciso pagarmos o mal com o bem. 
(Sai.) 
PAROLLES - Sujeito ftil, sou capaz de jurar. 
BERTRAM - No penso assim. 
PAROLLES - Ento no o conheceis? 
BERTRAM - Conheo-o bem;  tido pelo povo em muito grande estima. Eis minha cruz. 
(Entra Helena.) 
HELENA - Senhor, seguindo nisso vossas ordens, falei com o rei e permisso obtive para deixar a corte. 
Ele somente vos quer dizer uma palavra  parte. 
BERTRAM - Far-lhe-ei nisso a vontade. Minha conduta, Helena, no vos deve causar admirao, por 
parecer-vos sem cor e sem propsito e ir de encontro ao que do meu dever se esperaria. Mas no me 
achava preparado para tal acontecimento, que, sem dvida me apanhou de surpresa. Esse o motivo de vos 
pedir que vades para casa sem que estranheza reveleis por isso. Tenho motivos muito mais razoveis do 
que do impresso, sendo que h muito mais urgncia no assunto dessa viagem do que  primeira vista 
podereis supor, desconhecendo o que se passa. Dai isto a minha me. 
(Entrega-lhe uma carta.) 
Como s posso ver-vos daqui a dois dias, vos entrego  vossa discrio. 
HELENA - Nada vos digo, senhor, seno que sou vossa fiel serva. 
BERTRAM - Deixai; no faleis nisso. 
HELENA - E que hei de sempre me esforar por suprir o que no pde me dar humilde estrela, em tudo 
digna me mostrando da sorte inesperada. 
BERTRAM - Deixai. Estou com pressa. Voltai logo para casa. 
HELENA - Perdoai-me, por obsquio, senhor. 
BERTRAM - Que pretendeis dizer com isso? 
HELENA - No mereo a fortuna que me coube; no me atrevo a dizer que me pertence. No entanto,  
minha mesmo. Qual medroso ladro, hei de roubar modestamente do que me deu a lei. 
BERTRAM - Que mais quereis? 
HELENA - Um quase nada... Muito... Nada! Nada! No vos direi, senhor, o que me ocorre... No; vou
dizer: s estranhos e inimigos se despedem sem se beijarem. 
BERTRAM - Por favor, depressa! Montai logo a cavalo. 
HELENA - Vossas ordens, meu bom senhor, sero obedecidas. 
BERTRAM - (a Parolles): Os outros homens, onde esto? 
(A Helena): Adeus, 
(Sai Helena.) 
Vai logo para casa, onde no hei de tornar a pr os ps enquanto espada puder brandir e o toque ouvir da 
luta. Para a guerra! 
PAROLLES - Coraggio! Bravo! Bravo! 
(Saem.) 
ATO III 
Cena I 
Florena. Um quarto no palcio do duque. Clarins. Entram o duque, com squito, dois nobres franceses 
e soldados. 
DUQUE - Assim, de ponta a ponta, ouvistes todas as razes desta guerra inevitvel, que tanto sangue tem 
custado e muito mais sede ainda revela. 
PRIMEIRO NOBRE - A luta  santa de vosso lado, negra e pavorosa do lado dos contrrios. 
DUQUE - Por isso mesmo muito nos surpreende que nosso primo, o Rei da Frana, o peito feche aos 
nossos apelos. 
PRIMEIRO NOBRE - Caro prncipe, razes do Estado, nunca as soube, nunca. Como um particular que 
sempre longe viveu da corte, s na fantasia me figuro os conselhos imponentes. No ouso, pois, dizer-vos 
o que penso, visto j ter errado muitas vezes em minhas oscilantes conjeturas. 
DUQUE - Seja o que ele quiser. 
SEGUNDO NOBRE - Mas estou certo de que os nossos fidalgos, enfarados por no fazerem nada, aqui, 
bem presto, viro buscar a cura por que anseiam. 
DUQUE - Sero muito bem-vindos. Neles ho de pousar as honras que de mim voarem. Conheceis 
vossos postos. Tereis sorte, se os grandes alcanar a fria morte. 
(Clarins. Saem.) 
Cena II 
Rossilho. Um quarto no palcio da condessa. Entram a condessa e o bobo. 
CONDESSA - Tudo se passou como eu o desejara, com a diferena de ele no a trazer consigo. 
BOBO - Por minha f, considero meu jovem senhor um homem muito melanclico.
CONDESSA - Como chegastes a essa concluso, por obsquio? 
BOBO - Ora, ele olha para as botinas e canta, endireita a gola e canta, faz perguntas e canta, palita os 
dentes e canta. Conheo um homem que tinha esse vcio da melancolia e vendeu uma bela propriedade 
por uma cano. 
CONDESSA (abrindo a carta) - Vejamos o que ele me escreve e quando pretende voltar. 
BOBO - No penso em Isbel desde que estive na corte. Nosso velho bacalhau e os Isbis do campo so 
coisa nenhuma em confronto com o velho bacalhau e as Isbis da corte. Meu Cupido levou uma 
marretada na cabea, tendo eu comeado a amar, como os velhos amam o dinheiro, sem grande apetite. 
CONDESSA - Que temos aqui? 
BOBO - Precisamente o que tendes a. 
(Sai.) 
CONDESSA - "Envio-vos uma nora; ela curou o rei e me desgraou. Desposei-a, mas no compartilhei 
do leito dela, tendo jurado comigo mesmo que esse "No" ser eterno. Mais cedo ou mais tarde tereis de 
ficar sabendo da minha partida; recebei, pois, de mim esta notcia, antes de virdes a sab-la por outras 
vias. Se o mundo for bastante largo, manter-me-ei sempre a grande distncia. Meus respeitos filiais. 
Vosso desventurado filho Bertram." Foi malfeito. Oh rapaz precipitado, sem medida nenhuma! Desse 
modo desprezar os favores de um monarca, contra ti prprio lhe chamando a clera, por desprezado 
haver uma donzela to rica de virtudes e que fora digna at mesmo de ocupar um trono! 
(Volta o bobo.) 
BOBO -  madame! L fora h notcias pesadas entre dois soldados e a minha jovem senhora. 
CONDESSA - Que  que h? 
BOBO - Mas h alguma consolao nessas notcias, alguma consolao: vosso filho no h de ser morto 
to depressa como eu julgava. 
CONDESSA - Por que haveria de ser ele morto? 
BOBO - Quero dizer, madame, no caso de fugir, como dizem que o fez. O perigo consiste em enfrentar o 
perigo, que  como os homens perdem e as crianas vm ao mundo. Eis que chegam as pessoas que vos 
podero contar melhor do que eu o de que se trata. De minha parte, s ouvi dizer que vosso filho fugiu. 
(Entram Helena e dois gentis-homens.) 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Deus vos guarde, senhora. 
HELENA -  condessa! o meu senhor partiu, partiu para sempre! 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - No faleis desse modo. 
CONDESSA - Ficai calma. Senhores, por obsquio... Tantos golpes me tm tocado a um tempo, de 
alegria e tristeza, que impossvel ter de ser qualquer deixar-me agora sem a calma precisa. Por obsquio: 
meu filho onde se encontra? 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Foi, senhora servir na guerra ao Duque de Florena. Em caminho o 
encontramos, pois viemos justamente de l, sendo que logo que nos desincumbirmos da mensagem que 
corte nos conduz, para Florena voltaremos de novo. 
HELENA - Nesta carta, senhora, encontrareis meu passaporte. "Quando conseguires o anel que trago no 
dedo, e que jamais sair dele, e quando puderes mostrar-me um filho nascido de teu ventre, que tenha 
sido gerado por mim: ento poders dar-me o nome de esposo. Mas esse "ento" vale por um "nunca." 
"Que sentena terrvel! 
CONDESSA - Cavalheiros, fostes os portadores desta carta? 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Sim, condessa, pesando-nos o esforo de traz-la, ao sabermos do que 
trata. 
CONDESSA - Menina, por favor mostra-te alegre; se ficares com todas as tristezas, senhoreias a parte 
que me toca. Ele era filho meu. Seu nome agora do sangue apago, porque fiques sendo minha filha 
to-s. Ento, certo que foi para Florena? 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Sim, condessa. 
CONDESSA - Quer ser soldado? 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Esse seu nobre empenho, e podeis ficar certa de que o duque vai 
cobri-lo de quantas honrarias faz jus seu nobre sangue. 
CONDESSA - Novamente viajais para Florena? 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Sim, condessa; com as lestas asas que nos der a pressa. 
HELENA - "Enquanto esposa eu no tiver, em Frana no terei coisa alguma,"  muito amargo. 
CONDESSA - Na carta encontrais isso? 
HELENA - Sim, condessa. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Talvez a mo, somente houvesse tido semelhante ousadia, sem que 
dela tomasse o corao conhecimento 
CONDESSA - Enquanto esposa no tiver, em Frana no ter coisa alguma! Nada a Frana tem digno 
dele, se no for Helena, que merece um marido a que servissem dez rapazes assim como ele, rudes, que a 
toda hora a chamassem de senhora. Quem estava com ele? 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Um criado, apenas, e um cavalheiro que eu conheo h pouco. 
CONDESSA - Parolles, no? 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Precisamente, minha cara senhora. 
CONDESSA -  um tipo difamado, cheio de malvadez. Meu filho estraga na companhia dele o seu 
carter de princpios to bons. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Razo vos sobra no que dizeis, condessa. Ele defeitos em excesso 
possui, que ho de impedi-lo de alguma coisa ser em qualquer tempo. 
CONDESSA - Sois bem-vindos, senhores. Quando virdes novamente meu filho, por obsquio dizei-lhe
que jamais com a espada ele h de ganhar a honra perdida. Outros recados de minha parte, em carta, heis 
de levar-lhe. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Contai conosco, nobre dama, nisto, como em qualquer assunto de 
importncia. 
CONDESSA - Isso s bastar, se no mudarmos. Vireis comigo, no? 
(Saem a condessa e os gentis-homens.) 
HELENA - "Enquanto esposa eu no tiver, em Frana no tereis coisa alguma." No tem nada na Frana, 
enquanto no tiver esposa! Nenhuma esposa, Rossilho, na Frana virs a ter, nenhuma. Depois, tudo de 
novo h de ser teu. Pobre marido! Eu sou a que te expulso de tua ptria e os grceis membros aos cruis 
eventos das batalhas te exponho? Eu, que da corte to amvel te arranco, onde olhos temos sobre ti 
convergiam, para seres alvo dos fumegantes mosqueteiros? Mensageiros de chumbo, que os ginetes de 
fogo cavalgais devastadores, errai o alvo! Cortai o ar sossegado, que canta ao ser rasgado, mas no esposo 
no me toqueis! Se a mira puser nele qualquer atirador, de mim lhe veio semelhante incumbncia; se lhe 
o peito nobre algum atacar, a miservel fui eu que o concitei a essa aventura. E conquanto o no mate, 
sempre a causa serei de seu trespasse. Melhor fora, para mim, encontrar o leo terrvel, quando ruge 
acossado pela fome; muito melhor que todas as misrias da natureza, a um tempo, fossem minhas. No, 
Rossilho, retorna para casa! Esses lugares deixa em que a honra ganha somente cicatrizes e, por vezes, 
chega tudo a perder. Sairei de casa. Se a causa eu sou de andares desterrado, poderei aqui estar? No! 
Ainda mesmo que aqui do paraso o ar respirasse e servida por anjos eu me visse. Partirei, porque o boato 
compassivo fale de minha fuga e, de algum modo, te sirva de consolo. Vem depressa, noite escura! 
Termina,  dia feio! que eu, pobre ladra, as trevas no receio. 
(Sai.) 
Cena III 
Florena. Diante do palcio do duque. Clarins. Entram o duque, Bertram, Parolles e soldados tocando 
tambores e trombetas. 
DUQUE - Ficars sendo o general de nossa cavalaria. Rico de esperanas, depositando nosso amor em 
tua fortuna promissora. 
BERTRAM -  muito peso, senhor, para estes ombros. Todavia, por se tratar de vossa causa digna, 
procurarei lev-lo ao ponto extremo. 
DUQUE - Vai logo, e que a Fortuna, qual amada caprichosa, te afague o capacete. 
BERTRAM -  grande Marte, neste dia eu entro para tuas fileiras! D que eu seja conforme os 
pensamentos que me agitam, que amante eu provarei ser do tambor, como inimigo acrrimo do amor. 
(Saem.) 
Cena IV 
Rossilho. Um quarto no palcio da condessa. Entram a condessa e o intendente. 
CONDESSA - Por que aceitaste a carta? No previas que ao te entregar a carta ela haveria de fazer o que 
fez? L-a de novo.
INTENDENTE (l) - Parto como devota de So Tiago. Culpada me tornou o amor ousado; descala, 
agora, o frio cho afago porque demover possa o dum fado. Escrevei logo, porque meu marido, vosso 
filho, sair possa da guerra. Vivei felizes, que este dolorido corao ficar numa outra terra. Possa ele me 
perdoar a dura sorte. Juno implacvel, o mandei para onde os heris acossados so da morte, longe da 
corte onde o prazer se esconde.  bom demais para morrer agora. Que a morte, ento, me leve em boa 
hora. 
CONDESSA - Quantos espinhos nessas frases brandas! Rinaldo, nunca te mostraste tanto destitudo de 
senso, como ao teres deixado que se fosse. Se eu tivesse conversado com ela, a demovera de semelhante 
intento. Ora burlou-nos qualquer expectativa de ret-la. 
INTENDENTE - Perdo, senhora, mas se eu vos tivesse dado a carta esta noite,  bem possvel que a 
houvssemos pegado. Todavia, ela escreveu que tudo fora intil. 
CONDESSA - Como pode haver anjo que abenoe marido to indigno? Venturoso jamais poder ser, se 
lhe faltarem as oraes da esposa, que acolhida sempre acharam no cu, porque da clera do Julgador 
supremo o deixem livre. Rinaldo, escreve, escreve sem demora ao marido que indigno se revela de uma 
tal companheira. Que as palavras de tua carta pesem tanto quanto cada um dos grandes mritos de 
Helena, que to de leve ele avalia agora. Mostra-lhe quanto  grande o meu desgosto, conquanto mossa 
alguma isso lhe faa. Confia a carta a um mensageiro prtico. Talvez retorne, quando ouvir a nova da 
partida de Helena, sendo crvel que esta, ao saber que em casa ele se encontra, voltar sem demora, 
conduzida pelo mais puro amor. Dizer no posso qual dos dois me  mais caro; habilidade para tanto me 
falta. Cuida logo do mensageiro. O corao no peito se me aperta; a velhice em mim j pesa. A chorar a 
tristeza ora me obriga, mas discursos me arranca a dor imiga. 
(Saem.) 
Cena V 
Diante dos muros de Florena. Ao longe, toque de trombeta. Entram uma viva de Florena, Violenta, 
Mariana e vrios cidados. 
VIVA - Vinde para mais perto, porque se eles se aproximarem da cidade, no veremos coisa nenhuma. 
DIANA - Dizem que o conde francs prestou servios inestimveis. 
VIVA - O que corre por a  que ele aprisionou o principal comandante e que com a prpria mo tirou a 
vida ao irmo do duque. Perdemos o trabalho! Tomaram outra estrada. Ateno! Trombetas! 
MARIANA - Vamos embora. Contentemo-nos em ouvir o que nos contarem. Diana, toma cuidado com 
esse conde francs. A honra de uma donzela  sua fama, no havendo dote de mais valor do que a 
honestidade. 
VIVA - Contei a minha vizinha que fostes solicitada por um gentil-homem da companhia dele. 
MARIANA - Conheo esse tipo. Que se enforque! Um tal Parolles;  um oficial ignbil, o demnio 
tentador do jovem conde. Diana, cuidado com eles; suas promessas, sedues, juramentos, presentinhos e 
todos esses artifcios da luxria, no so o que parecem ser. Muitas donzelas j foram desviadas por eles; 
mas infelizmente o espetculo da virgindade naufragada, com suas terrveis conseqncias, no serve de 
exemplo para ser evitado, havendo muitas donzelas que se deixam pegar no visgo que para elas 
preparado. Penso que no precisarei insistir, por estar certa de que a tua virtude te conservar como ests, 
ainda que a perda da modstia fosse o nico perigo a temer. 
DIANA - Podeis ficar tranqila a meu respeito. 
VIVA -  o que espero. Vde; a vem uma peregrina.  certeza ir pousar em casa, porque todos os 
peregrinos a recomendam. Vou falar-lhe. 
(Entra Helena, em trajes de peregrino.) 
Deus vos proteja em tudo, peregrina. Onde ides repousar? 
HELENA - Na hospedaria de So Jaques le Grand, onde se alojam todos os peregrinos. Onde fica? 
VIVA - Perto dos Franciscanos, junto ao porto. 
HELENA -  este o caminho? 
VIVA - Sim; por a mesmo. 
(Marcha guerreira, ao longe.) 
Vm vindo por aqui. Se demorardes, santa peregrina, para ver o desfile, eu te encarrego de at l 
conduzir-vos, pois conheo como a mim prpria a dona da hospedagem. 
HELENA - Sois ela, no? 
VIVA - Decerto, peregrina, se no vos causo incmodo. 
HELENA - Obrigada. Esperarei o tempo que quiserdes. 
VIVA - Viestes da Frana, penso. 
HELENA - De l mesmo. 
VIVA - Ides ver um patrcio valoroso, que adquiriu grande fama. 
HELENA - Qual seu nome? 
VIVA -  o Conde Rossilho. Sabeis quem seja? 
HELENA - S de nome o conheo; falam dele com muitos elogios. Nunca o vi. 
DIANA - Seja quem for,  tido em alta conta. Por aqui dizem que fugiu de Frana porque o rei o casou 
contra a vontade. Pensais que seja assim? 
HELENA - Pura verdade; conheo sua esposa. 
DIANA - Um gentil-homem do servio de conde fala dela com muito desrespeito. 
HELENA - Qual seu nome? 
DIANA - Monsieur Parolles. 
HELENA - Dou-lhe todo crdito, porque em matria de elogios, tendo-se em mira o grande conde, ela  
pequena por demais para ser sequer lembrada. Consiste todo o seu merecimento na moral mais severa, 
no havendo quem sobre isso aventure qualquer dvida.
DIANA - Pobre senhora!  escravido penosa casar-se algum com quem dio lhe vota. 
VIVA - decerto. Coitadinha! Em qualquer parte que esteja, h de sofrer. Esta menina que aqui vdes, 
podia preparar-lhe uma velhacaria. 
HELENA - Em que sentido dizeis isso? Pensais que, apaixonado dela, o conde podia apresentar-lhe 
propostas menos lcitas? 
VIVA - Foi isso, realmente, o que se deu. Ele se vale de todos os engodos que em tais casos a grcil 
honra ameaam das donzelas. Mas ela est de guarda e se acautela contra ele numa honesta resistncia. 
MARIANA - Deus no queira que seja de outro modo! 
(Entram Bertram e Parolles, precedidos de tambores e estandartes e seguidos de parte do exrcito 
florentino.) 
VIVA - Ei-los! Aquele  Antnio, o primognito do duque. Aquele  Escalo. 
HELENA - Qual  o conde francs? 
DIANA - Aquele ali, que traz a pluma.  um moo lindo. Desejara que ele tivesse amor  esposa. Caso 
fosse mais fiel, me parecera mais amvel No  elegante? 
HELENA - A mim parece bem. 
DIANA -  pena ser desleal. Aquele  o biltre que leva o conde para o mau caminho. Se eu fosse a 
esposa, j teria dado veneno a esse patife. 
HELENA - Qual  deles? 
DIANA - Aquele mono ali, cheio de fachas. Mas por que estar triste? 
HELENA - Foi ferido, decerto, no combate. 
PAROLLES - Ora! Ora! Perder nosso tambor! 
MARIANA - Parece muito contrariado. Ateno, que ele nos viu! 
VIVA - Vai te enforcar, idiota! 
MARIANA - Por que tanta reverncia para um alcoviteiro? 
(Saem Bertram, Parolles, oficiais e soldados.) 
VIVA - As tropas j passaram. Peregrina, vou levar-vos agora para casa. J esto na hospedaria quatro 
ou cinco penitentes que vo cumprir promessa no tmulo do grande So Tiago. 
HELENA - Agradeo-vos muito humildemente. Se esta senhora e sua gentil filha se dignarem de cear 
hoje conosco, os gastos pagarei, sobre ficar-lhes agradecida. Mais: porque vos possa recompensar, darei 
alguns conselhos a esta menina, dignos de anotados. 
AMBAS - Aceitamos de grado vosso invite. 
(Saem.)
Cena VI 
Acampamento diante de Florena. Entram Bertram e dois nobres franceses. 
PRIMEIRO NOBRE - Assim mesmo, caro conde; experimentai-o; fazei-lhe a vontade nesse ponto. 
SEGUNDO NOBRE - Se Vossa Senhoria, no se convencer de que ele  um poltro de marca, consinto 
em perder vossa estima. 
PRIMEIRO NOBRE - Por minha vida, senhor, no passa de uma bolha de sabo. 
BERTRAM - Acreditais que eu me iludi a tal ponto a respeito dele? 
PRIMEIRO NOBRE - Podeis crer no que vos digo, milorde. Por tudo o que sei a seu respeito, por 
experincia prpria, falando sem qualquer malcia, como se se tratasse de um parente, considero-o um 
covarde de primeira, mentiroso infinito e ilimitado, sujeito que a todos os momentos falta com a palavra, 
carecente de qualquer qualidade merecedora das atenes de Vossa Senhoria. 
SEGUNDO NOBRE - Seria bom que o ficsseis conhecendo, para no acontecer que em algum negcio 
importante venhais a contar com qualidades que ele no possuir e, assim, ficardes em situao 
desagradvel. 
BERTRAM - Desejara que se oferecesse uma oportunidade para experiment-lo. 
SEGUNDO NOBRE - No h melhor oportunidade do que mand-lo buscar o tambor que os inimigos 
lhe tomaram, o que ele tanto se gaba de poder fazer. 
PRIMEIRO NOBRE - Eu e outros florentinos haveremos de surpreend-lo. Terei o cuidado de escolher 
gente desconhecida dele, para que ele julgue tratar-se de inimigos. Havemos de amarr-lo e de tapar-lhe 
os olhos, de forma que no possa deixar de acreditar que o conduzimos para o acampamento dos 
adversrios, quando, em verdade, o levamos para nossas tendas. Assista Vossa Senhoria ao interrogatrio 
a que o submetermos. Se, levado pelo mais vergonhoso medo da morte, s pela promessa de o deixarmos 
vivo, ele no se prontificar a vos trair e a nos revelar tudo o que sabe a vosso respeito, empenhando nisso 
at mesmo a salvao da alma, nunca mais confieis no meu julgamento, seja sobre que assunto for. 
SEGUNDO NOBRE - Oh! Pelo amor da gargalhada, mandai-o buscar o tambor. Ele espalha por a tudo 
que dispe de um estratagema infalvel. Quando Vossa Senhoria puder enxergar at ao fundo de seu 
xito e se certificar da escria a que ficou reduzido esse falso lingote de metal, se no passardes a trat-lo 
como um Joo Tambor,  que vossa inclinao  realmente inabalvel. Ei-lo que chega. 
PRIMEIRO NOBRE - Oh! pelo amor da gargalhada, no nos priveis de semelhante brincadeira. 
Mandai-o buscar o tambor, seja como for. 
(Entra Parolles.) 
BERTRAM - Ento, monsieur! Ainda estais a pensar no tambor? 
SEGUNDO NOBRE - Ora, que o leve a breca.' Afinal, que  um tambor? 
PAROLLES - Que  um tambor? Sim,  um tambor. Mas perder um tambor dessa maneira! Excelente 
comando, em verdade! Atirar a cavalaria contra nossas prprias asas e destroar nossos prprios 
soldados!
SEGUNDO NOBRE - No devemos censurar o comando; foi um desastre que o prprio Csar no 
poderia ter evitado, se tivesse sido dele a direo. 
BERTRAM - Bem; no lastimemos o que se deu.  certo que alguma desonra nos atinge com a perda 
desse tambor. Mas agora no podemos pensar em reav-lo. 
PAROLLES - Pois  possvel reav-lo. 
BERTRAM - J foi possvel; agora  tarde. 
PAROLLES - Ainda  possvel. Se o mrito dos grandes feitos nas campanhas militares no fosse to 
raramente atribudo a quem os executa com verdade e exatido, eu poderia reaver no s esse tambor 
como qualquer outro, ou hic jacet. 
BERTRAM - Ento, monsieur, se revelais tanto desejo disso, se tendes a certeza de que vosso misterioso 
estratagema poder fazer voltar para o seu quartel natal esse instrumento de honra, sde magnnimo no 
empreendimento, e mos  obra! Considerarei tal feito como uma faanha gloriosa. Se fordes 
bem-sucedido, o duque no somente falar de semelhante empreendimento, como vos far sentir os 
benefcios de sua grandeza at  ltima slaba do vosso mrito. 
PAROLLES - Por esta mo de soldado, vou tent-lo. 
BERTRAM - No deixeis que o assunto durma. 
PAROLLES - Vou comear ainda esta tarde, passando desde j a desenhar os planos, a dar fora a minha 
resoluo e a ditar as minhas ltimas disposies. L pela meia-noite ouvireis falar de mim. 
BERTRAM - Posso ter a ousadia de comunicar a Sua Graa que j destes incio a esse empreendimento? 
PAROLLES - Qual seja o fim disso, milorde, no saberei diz-lo; mas juro que farei uma tentativa. 
BERTRAM - Tenho-te na conta de bravo, e subscrevo tudo o que  de esperar de tua coragem de 
soldado. 
PAROLLES - No sou amigo de muitas palavras. 
(Sai.) 
PRIMEIRO NOBRE - To pouco amigo quanto o peixe da gua. Que achais de um sujeito como esse, 
milorde, que parece entrar com tamanha confiana em um negcio que antecipadamente tem por 
impraticvel? Com essa resoluo ele mesmo se condena s penas eternas, preferindo ser condenado a 
levar avante o empreendimento. 
SEGUNDO NOBRE - No o conheceis tanto quanto ns, milorde.  certo que sabe o segredo de 
insinuar-se nas graas de qualquer pessoa, evitando, por uma semana, que se lhe descubram as tricas; 
mas, uma vez desmascarado, t-lo-eis preso para sempre. 
BERTRAM - Como! Acreditais que no far nada do que prometeu com tanta solenidade? 
PRIMEIRO NOBRE - Absolutamente nada; voltar da aventura com uma invencionice qualquer, 
pespegando-vos duas ou trs mentiras a jeito. Mas j lhe descobrimos o rasto; esta noite haveis de v-lo 
na armadilha, porque, em verdade, no  digno das atenes de Vossa Senhoria.
SEGUNDO NOBRE - Primeiro, brincaremos um pouco com a raposa, antes de lhe tirarmos a pele. O 
velho senhor Lafeu j est na pista. Quando lhe tirarmos a mscara, haveis de ver que tipo srdido ele , 
de fato, o que no passar desta noite. 
PRIMEIRO NOBRE - Preciso ir preparar a armadilha; havemos de apanh-lo. 
BERTRAM - Vosso irmo ficar comigo. 
PRIMEIRO NOBRE - Como for do agrado de Vossa Senhoria. Deixo-vos. 
(Sai.) 
BERTRAM - Agora vou levar-vos  hospedagem, onde a jovem est de que falamos. 
SEGUNDO NOBRE - Dissestes que ela  honesta. 
BERTRAM -  o seu defeito. Falei-lhe uma s vez, tendo-a encontrado extremamente fria. Mas 
mandei-lhe por esse mesmo biltre, em cuja pista nos pusemos, presentes e missivas, que ela me devolveu. 
 tudo o que houve.  uma criatura linda. Quereis v-la? 
SEGUNDO NOBRE - Irei de todo corao, milorde. 
(Saem.) 
Cena VII 
Florena. Um quarto em casa da viva. Entram Helena e a viva. 
HELENA - Se duvidais que eu seja ela, realmente, no sei que outras razes possa aduzir-vos se no for 
estragando o prprio plano. 
VIVA - Conquanto empobrecida, sou de boa famlia; desconheo esses assuntos. No posso, assim, 
comprometer o nome numa ao duvidosa. 
HELENA - Nunca tive semelhante inteno. Mas podeis crer-me: o conde  meu marido. Tudo quanto 
vos confiei h momentos  verdade, palavra por palavra. Nem possvel ser, portanto, cometerdes algo 
passvel de censura, se me derdes o auxlio que vos disse. 
VIVA - Convencida me confesso depois que apresentastes prova de que sois rica. 
HELENA - Tomai esta bolsa com moedas de ouro, permitindo-me vos compre, desta forma, a ajuda 
amiga, que de pagar no deixarei mais vezes depois de obtido tudo. A vossa filha corteja o conde, tendo 
posto cerco, com o vio que lhe  prprio,  sua rara formosura, disposto a conquist-la. Ela que ceda e  
risca siga os nossos conselhos, que h de em bem acabar tudo. No h de recusar o sangue altivo do 
conde o que ela exigir dele em paga. Um anel de famlia usa ele sempre, que de pai para filho vem 
passando h quatro ou cinco geraes, contadas desde o primeiro dono. Em alta estima tem o conde esse 
anel; mas ante a ardncia de seus desejos, porque o intento alcance, dele se desfar, embora venha depois 
a arrepender-se. 
VIVA - J comeo a entender vosso plano. 
HELENA - E quanto ele  legtimo. Consiste, simplesmente, em mostrar-lhe vossa filha, antes de parecer 
que se lhe entrega, desejos de possuir aquela jia. Depois lhe marcar uma entrevista, que ficar a meu
cargo, conservando-se castamente a distncia. Alcanando isso, lhe darei, de crescena, como dote, trs 
mil coroas mais do que assentamos. 
VIVA - Nada mais oporei. S falta, agora, dardes a minha filha as necessrias instrues, porque o 
tempo e as circunstncias esse embuste legal ajudar possam. Como sempre,  noitinha trar msicos 
variados e canes feitas em honra de sua indignidade. Em vo tentamos enxot-lo de casa; ele persiste 
como quem joga nisso a prpria vida. 
HELENA - Ento  noite a pea ensaiaremos. Sendo bem-sucedida, em ao boa transmudaremos o ato 
que destoa, e embora seja, em si, o passo errado, nenhum dos dois cometer pecado. Mas passemos  
ao. 
(Saem.) 
ATO IV 
Cena I 
Fora do campo florentino. Entra o primeiro nobre francs, com cinco ou seis soldados, que se pem de 
emboscada. 
PRIMEIRO NOBRE - Ele no poder deixar de passar pelo canto desta sebe. Quando saltardes sobre ele, 
falai a linguagem terrvel que bem vos parecer, no importando que vs mesmos no vos entendais, pois 
teremos de dar a impresso de no entender o que ele disser, com exceo de um do nosso grupo, que 
servir de intrprete. 
PRIMEIRO SOLDADO - Bom capito, permiti que seja eu o intrprete. 
PRIMEIRO NOBRE - No s das relaes dele? Ele no conhece a tua voz? 
PRIMEIRO SOLDADO - No, senhor; posso assegurar-vos. 
PRIMEIRO NOBRE - Mas em que geringona falars conosco? 
PRIMEIRO SOLDADO - Na mesma em que me falardes. 
PRIMEIRO NOBRE -  preciso que ele nos tome por um bando de estrangeiros a soldo do inimigo. Mas 
como ele possui umas tinturas dos dialetos da vizinhana, cada um de ns ter de falar como lhe ditar a 
fantasia, sem se preocupar com o que os outros possam estar a dizer. O que importa  darmos a 
impresso de que nos entendemos; a linguagem das gralhas ou o grasnar dos corvos, tudo serve. Quanto 
a vs, intrprete, precisareis agir como um grande poltico. Mas agachai-vos! A vem ele, para enganar 
duas horas a dormir e depois voltar e jurar quantas mentiras tenha forjicado. 
(Entra Parolles.) 
PAROLLES - Dez horas! Daqui a trs horas ser tempo de voltar para casa. Que direi que fiz neste 
meio-tempo? Preciso inventar qualquer mentira plausvel, que me tire deste apuro. J comeam a 
desconfiar; de certo tempo a esta parte, a infelicidade me tem batido  porta com bastante freqncia. Sei 
que tenho a lngua ousada, mas o corao sempre se mostrou medroso de Marte e de seus filhos, motivo 
por que no se atreve a pr em execuo o que ela avana. 
PRIMEIRO NOBRE ( parte) - Essa  a primeira verdade de que em qualquer tempo a tua lngua se
mostrou culpada. 
PAROLLES - Que diabo me levou a dizer que eu podia reaver esse tambor, se eu sabia perfeitamente 
que se tratava de feito impraticvel e nunca tivera a inteno de realiz-lo? Terei de praticar em mim 
mesmo alguns ferimentos, para poder afirmar, depois, que os adquiri nesta aventura. Mas ferimentos 
superficiais de nada serviro, pois podero objetar-me: "Voltastes da empresa com to pouco?" Bem, 
mas ferimentos graves, no tenho coragem de fazer. E, afinal, para qu? Lngua, pr-te-ei na boca de 
uma mulher de manteiga e comprarei outra dos mudos de Bajazet, se com tua tagarelice te meteres em 
outra enrascada igual a esta. 
PRIMEIRO NOBRE ( parte) - Ser possvel que se conhea a tal ponto e continue sendo o que ? 
PAROLLES - Quem me dera que bastasse para me tirar do apuro produzir alguns rasges na roupa, ou 
quebrar a minha espada espanhola! 
PRIMEIRO NOBRE 
( parte) - O que no te permitiramos. 
PAROLLES - Ou cortar a barba, para depois dizer que isso fazia parte dos meus planos. 
PRIMEIRO NOBRE ( parte) - De pouco te serviria tal servio. 
PAROLLES - Ou atirar na gua as vestes, e dizer que me despojaram. 
PRIMEIRO NOBRE ( parte) - Ser difcil. 
PAROLLES - Ainda que eu jurasse haver saltado da janela da cidadela... 
PRIMEIRO NOBRE ( parte) - De que altura? 
PAROLLES - ...trinta toezas. 
PRIMEIRO NOBRE ( parte) - Trs juramentos solenes ainda foram insuficientes para que acreditassem 
em tua palavra. 
PAROLLES - Se eu conseguisse arranjar um tambor qualquer dos inimigos, juraria que havia 
reconquistado o meu. 
PRIMEIRO NOBRE ( parte) - Vais ouvir um neste momento. 
PAROLLES - Um tambor do inimigo! 
(Ouve-se sinal de alarma.) 
PRIMEIRO NOBRE - Throca movousus, cargo, cargo, cargo! 
TODOS - Cargo, cargo, villianda par corbo, cargo. 
(Atiram-se sobre Parolles e amarram-lhe os olhos.) 
PAROLLES - Oh! Resgate! Resgate! No me amarreis os olhos! 
PRIMEIRO NOBRE - Boskos thromuldo boskos.
PAROLLES - Vejo que sois do regimento Muskos. Oh! Terei de morrer, por ser-me estranha vossa 
linguagem. Entre vs, acaso, no h nenhum francs, ou italiano, holands, alemo, dinamarqus? Que 
me venha falar; hei de fazer-lhe revelaes capazes de a desgraa levar aos florentinos. 
PRIMEIRO SOLDADO - Boskos vauvado. Falo tua lngua e entendo o que disseste. Kerelybonto, 
amigo. Pensa na salvao, pois dezessete punhais tens ante o peito. 
PAROLLES - Oh! 
PRIMEIRO SOLDADO - Reza! Reza! Manha revania dulche. 
PRIMEIRO NOBRE - Oscorbidulchos volivorco. 
PRIMEIRO SOLDADO - Permite o general que te poupemos. Vendado como ests, irs conosco, porque 
ele te interrogue. Talvez possas dizer-nos algo que te salve a vida. 
PAROLLES - Oh! Deixai-me viver, que vos prometo revelar tudo o que h no nosso campo: a quanto 
montam nossos efetivos, os planos de campanha. Vou deixar-vos perplexos, podeis crer-me. 
PRIMEIRO SOLDADO - Sem mentiras? 
PAROLLES - Por minha salvao: puras verdades. 
PRIMEIRO SOLDADO - Acordo linta. Vem conosco; damos-te algum tempo de prova. 
(Saem escoltando Parolles alarma ao longe.) 
PRIMEIRO NOBRE - Ide dizei ao meu irmo e ao Conde de Rossilho que o pssaro est preso. 
Vendado vai ficar at que novas venhamos a ter deles. 
SEGUNDO SOLDADO - Sem demora, meu capito. 
PRIMEIRO NOBRE - Dizei-lhes, tambm, que ele nos pretende trair para ns mesmos. 
SEGUNDO SOLDADO - Perfeitamente. 
PRIMEIRO NOBRE - Mas que at esse instante na sombra ficar sob sete chaves. 
(Saem.) 
Cena II 
Um quarto em casa da viva. Entram Bertram e Diana. 
BERTRAM - Chamai-vos Fontebela? Assim disseram-me. 
DIANA - No meu senhor; Diana. 
BERTRAM - Excelsa deusa.! Sois digna desse nome e demais, ainda. Mas dizei-me, linda alma; nessa 
forma to perfeita no tem o amor imprio? Se o corao no vos anima o fogo da mocidade,  que no 
sois vivente, mas uma esttua, apenas. Quando morta, ficareis como agora: fria e sria. Mas devereis ser 
neste momento como era vossa me, ao engendrar-vos assim to meiga e bela. 
DIANA - Ela era honesta.
BERTRAM - Vs tambm o sereis. 
DIANA - No, que ela apenas cumpria o seu dever, tal qual, milorde, como de vs espera vossa esposa. 
BERTRAM - No falemos mais nisso. Por obsquio, deixa de resistir a minhas splicas. A outra, a mal 
de meu grado, me ligaram; mas preso a ti me sinto pelos prprios elos do amor, to gratos e inquebrveis, 
pondo-me eternamente a teu servio. 
DIANA - Vs nos servis at que vos sirvamos; mas, uma vez colhidas nossas rosas, permitis, 
simplesmente, que nos punjam nossos prprios acleos, sobre rirdes do estado em que ficamos. 
BERTRAM - No te tenho jurado tantas vezes? 
DIANA - A verdade, muitas juras nem sempre a certificam; um s voto, para isso,  suficiente, do imo 
peito nascido. S juramos pelo que  mais sagrado, reportando-nos  presena do Altssimo. Dizei-me, 
por favor: se eu jurasse pelos grandes atributos de Jove que vos tinha amor quase infinito, acreditreis em 
quanto vos dissesse, se em prejuzo vosso fosse esse amor? No  insensato jurar a quem protesto amar 
deveras que pretendo arruin-lo? Vossas juras, portanto, so palavras sem sentido, carecem de chancela, 
pelo menos no meu modo de ver. 
BERTRAM - Muda de idia. No sejas cruel e santa ao mesmo tempo. O amor  coisa santa. No condiz 
com meu carter fraude alguma dessas de que acusas os homens. No persistas em tua resistncia, mas 
entrega-te ao meu doente desejo, que, com isso, ficar bom de todo. Dize apenas que s minha, que este 
amor ficar sempre como ora se te mostra. 
DIANA - Os homens prendem cordas nas rochas ngremes, visando nosso perigo. Ento dai-me esse 
anel. 
BERTRAM - Poderei emprestar-to, cara amiga, mas no tenho o direito de presente fazer dele a 
ningum. 
DIANA - No quereis dar-mo? 
BERTRAM -  que esse anel  jia de famlia, de grande estimao, que nos vem sendo transmitido de 
herana; fora mcula indelvel perd-la. 
DIANA -  assim minha honra como esse anel. A castidade  a jia principal da famlia, que vem sendo 
transmitida de herana; fora mcula indelvel perd-la. Desse modo, vossa sabedoria se transforma em 
campe de minha honra, protegendo-a contra vossos ataques improfcuos. 
BERTRAM - Recebe, ento, o anel. Famlia, honra, minha prpria existncia  tua agora, ficando eu para 
sempre teu escravo. 
DIANA - Batei  meia-noite na janela do meu quarto. Farei que no perceba minha me o que passa. 
Prometei-me, contudo, pela vossa probidade, que depois da conquista do meu leito virginal, ficareis 
somente uma hora, sem nenhuma palavra dirigir-me. Tenho razes para isso, que a seu tempo vos 
comunicarei, ao restituir-vos o anel que ora me destes. Esta noite no dedo vos porei um outro anel, que 
testemunho dar possa em futuro at onde chegou nosso amor puro. No falteis; conquistastes uma 
esposa, cuja esperana em vs, to-s, repousa. 
BERTRAM - Ganhei um cu na terra ao conquistar-te.
(Sai.) DIANA - Vivei bastante para que, desta arte, me agradeais e ao cu.  bem possvel que algum 
dia o faais. Minha me me contou como ele havia de declarar-se. Bem parece que ela lera em seu 
corao. Todos os homens, disse ela, fazem sempre as mesmas juras. Ele jurou que havia de esposar-me, 
quando a mulher morresse. Assim, somente depois de morta hei de deitar-me com ele. Com francs case 
a moa que quiser, que, virgem, de ningum serei mulher. Nesta fraude no pode haver pecado, que  
virtude deixar o mal frustrado. 
(Sai.) 
Cena III 
O campo florentino. Entram os dois nobres franceses, com dois ou trs soldados. 
PRIMEIRO NOBRE - Entregastes-lhe a carta da me dele? 
SEGUNDO NOBRE - Entreguei-lhe h uma hora. Devia conter algo que o compungiu bastante, pois  
sua leitura parecia outro. 
PRIMEIRO NOBRE - Tornou-se passvel de censuras graves, por haver repudiado to boa esposa e to 
digna senhora. 
SEGUNDO NOBRE - Mas incorreu, principalmente, no eterno desagrado do rei, que j havia afinado a 
sua generosidade para cantar-lhe a dita. Desejo contar-vos uma coisa, mas devereis guard-la no mais 
recndito da alma. 
PRIMEIRO NOBRE - Logo que falardes, ser coisa morta, tornando-me eu a sua sepultura. 
SEGUNDO NOBRE - Ele perverteu uma senhorita aqui de Florena, de nome ilibado. Esta noite ele vai 
saciar o seu desejo no despojo da honra dela. Fez-lhe presente do anel de famlia e se considera 
felicssimo com esse compromisso escandaloso. 
PRIMEIRO NOBRE - Que Deus nos atenue o instinto de rebelio. Que somos, quando no passamos de 
ns mesmos! 
SEGUNDO NOBRE - Apenas traidores de ns prprios. E da mesma maneira que as traies, em seu 
curso regular, se revelam tais quais so, antes de alcanarem a meta abominvel, assim tambm o 
indivduo que pratica violncia contra sua dignidade, chega a inundar as prprias margens. 
PRIMEIRO NOBRE - No ser altamente condenvel essa propenso de nos fazermos preges de nossas 
intenes ilegtimas? Assim sendo, vamos ficar privados de sua companhia? 
SEGUNDO NOBRE - Mas s depois da meia-noite, que  a hora marcada para a entrevista. 
PRIMEIRO NOBRE - Ento falta pouco. Teria muito gosto em que ele visse ser anatomizado o seu 
amigo, para que pudesse avaliar o seu prprio discernimento, que o leva, por maneira to estranha, a 
praticar semelhante velhacaria. 
SEGUNDO NOBRE - Enquanto o conde no chegar, no nos ocuparemos com o outro, pois  a presena 
dele que lhe vai servir de aoite. 
PRIMEIRO NOBRE - Enquanto esperamos, que tendes ouvido a respeito desta guerra?
SEGUNDO NOBRE - Ouvi falar em negociaes de paz. 
PRIMEIRO NOBRE -  isso mesmo, pois posso assegurar-vos que a paz j foi assinada. 
SEGUNDO NOBRE - Assim sendo, que far o Conde de Rossilho? Continuar a viajar, ou voltar para 
a Frana? 
PRIMEIRO NOBRE - S por essa pergunta concluo que sois estranho a seu conselho. 
SEGUNDO NOBRE - Deus me livre, senhor! Que de outro modo me tornaria cmplice de seus atos. 
PRIMEIRO NOBRE - H cerca de dois meses sua esposa desapareceu de casa, sob pretexto de ir em 
peregrinao at o santurio de So Jaques le Grand, promessa que cumpriu com austera piedade. 
Enquanto esteve em casa tornou-se presa do acabrunhamento pela prpria delicadeza de sua constituio. 
Por fim, transformou em gemido o ltimo alento, e agora canta no cu. 
SEGUNDO NOBRE - Como se chegou a saber isso? 
PRIMEIRO NOBRE - Principalmente por cartas dela prpria, que confirmam sua histria at ao 
momento da morte, que no podendo ser contada por ela mesma, foi fielmente descrita pelo proco do 
lugar. 
SEGUNDO NOBRE - E o conde, est a par de todos esses fatos? 
PRIMEIRO NOBRE - De todos, ponto por ponto, no lhe sendo estranha a menor partcula da verdade 
total. 
SEGUNDO NOBRE - Sinto de corao que ele venha a alegrar-se com essa notcia. 
PRIMEIRO NOBRE -  extraordinrio, isso de encontrarmos, por vezes, consolo em nossas prprias 
perdas. 
SEGUNDO NOBRE - E como, muitas vezes, afogamos em lgrimas aquisies reais! As honrarias que a 
sua bravura lhe granjeou por aqui iro encontrar em casa oprbrio equivalente. 
PRIMEIRO NOBRE - A teia de nossa vida  composta de fios misturados: de bens e de males. Nossas 
virtudes se tornariam orgulhosas sem os aoites de nossos defeitos, como os nossos vcios desesperariam, 
se no fossem alentados pela virtude. 
(Entra um criado.) 
Ento, por onde anda teu amo? 
CRIADO - Encontrou o duque na rua, senhor, e despediu-se solenemente dele. Sua Senhoria parte 
amanh para a Frana. O duque lhe deu cartas de recomendao para o rei. 
SEGUNDO NOBRE - Que lhe sero mais do que necessrias, ainda que em seu louvor digam mais do 
que possam faz-lo 
PRIMEIRO NOBRE - No podero ser muito brandas, dada a disposio spera em que se encontra o 
rei. A vem vindo Sua Senhoria. 
(Entra Bertram.)
Ento, milorde; j no passa de meia-noite? 
BERTRAM - Liquidei dezesseis negcios esta noite, cada um do comprimento de um ms, tal foi a 
minha atividade. Despedi-me do duque, ofereci os prstimos s pessoas que o cercam, enterrei uma 
esposa, pus luto por ela, escrevi a minha me que estou de volta, arrumei as malas e, no intervalo de 
tantos negcios de monta, ainda pude levar a bom termo algumas coisinhas agradveis. A ltima  a mais 
importante; mas essa ainda no est concluda. 
SEGUNDO NOBRE - Se for cercada de certa dificuldade e tiverdes de viajar amanh, ser preciso que 
Vossa Senhoria se apresse. 
BERTRAM - Quando digo que ainda no est concluda,  pelo receio de ouvir falar dela para diante. 
Mas no tiremos, afinal, representar o dilogo entre o bufo e os soldados? Vamos, trazei-me logo o 
modelo falso. Enganou-me tal qual profeta de orculos duvidosos. 
SEGUNDO NOBRE - Ide busc-lo. 
(Saem alguns soldados.) 
Passou a noite no tronco, o coitado do valoroso embusteiro. 
BERTRAM - No faz mal, que seus calcanhares se tornaram merecedores disso mesmo, por haverem 
usurpado esporas por tanto tempo. Em que disposio se encontra? 
PRIMEIRO NOBRE - J disse a Vossa Senhoria que ele se encontra no cepo. Mas para responder como 
deveis ser compreendido, direi que chora como uma rapariga que houvesse derramado o leite. 
Confessou-se com Morgan - que ele acreditou ser padre - enumerando-lhe todos os pecados, desde 
quando alcana a memria, at ao recente desastre que lhe valeu ser posto no tronco. E que imaginais que 
tenha ele confessado? 
BERTRAM - Decerto nada com relao a minha pessoa? 
SEGUNDO NOBRE - Sua confisso foi tomada por escrito e ser lida em sua presena. Se Vossa 
Senhoria estiver includo nela, o de que tenho quase certeza, ser preciso revestir-vos de pacincia por 
ocasio de sua leitura. 
(Voltam os soldados com Parolles.) 
BERTRAM - A peste carregue esse embuado! De mim ele nada poder dizer. Mas silncio! Silncio! 
PRIMEIRO NOBRE - Chegou o cabra-cega. Porto tartarossa. 
PRIMEIRO SOLDADO - Est determinando a tortura. No quereis falar sem que recorramos a esse 
processo? 
PAROLLES - Para eu dizer o que sei no h necessidade de violncia. Se me apertardes como uma 
empada nada mais poderei dizer. 
PRIMEIRO SOLDADO - Bosko chimurcho. 
PRIMEIRO NOBRE - Boblibindo chicurmurco. 
PRIMEIRO SOLDADO - Sois um general misericordioso. Nosso general vos manda responder s 
perguntas que trago anotadas neste papel.
PAROLLES - Com tanta sinceridade como espero viver. 
PRIMEIRO SOLDADO - "Primeiro, perguntai-lhe a quanto monta a cavalaria do duque." Que 
respondeis a isso? 
PAROLLES - Cinco ou seis mil cavalos, mas fracos e imprestveis. As tropas esto espalhadas, sendo 
todos os comandantes uns pobres diabos, afirmo-o pela minha reputao e meu crdito; to certo como 
ainda espero viver. 
PRIMEIRO SOLDADO - Devo escrever vossa resposta nesses termos? 
PAROLLES - Perfeitamente; poderei confirm-la sob juramento, da maneira que julgardes mais 
conveniente. 
BERTRAM - Para ele tudo  o mesmo. O patife est perdido de todo. 
PRIMEIRO NOBRE - Estais enganado, milorde; quem est diante de vs  monsieur Parolles, o galante 
militarista - para usarmos de sua prpria expresso - que traz no n da charpa toda a teoria da guerra e na 
ponteira do punhal a sua prtica de soldado. 
SEGUNDO NOBRE - De hoje em diante no confiarei em nenhum homem s porque tras a espada 
limpa, nem acreditarei que possa ter merecimento s por ser impecvel no trajar. 
PRIMEIRO SOLDADO - Muito bem; j est escrito. 
PAROLLES - Cinco ou seis mil homens de cavalo, disse... S direi a verdade... Anda por a. Podeis 
tomar nota, pois s direi a verdade. 
PRIMEIRO NOBRE - Nesse ponto, de fato, ele anda perto da verdade. 
BERTRAM - Mas nem por isso lhe sou agradecido pela maneira por que a enunciou. 
PAROLLES - Uns pobres diabos,  o que vos digo. Anotai isso tambm, por obsquio. 
PRIMEIRO SOLDADO - Muito bem; j est escrito. 
PAROLLES - Humildemente vos agradeo, senhor. A verdade  a verdade. Os coitados so miserveis a 
conta inteira. 
PRIMEIRO SOLDADO - "Pergunta-lhe a quanto sobe a infantaria." Que respondeis a isso? 
PAROLLES - Por minha honra, senhor; tivesse eu de vida apenas esta hora, vou dizer-vos a verdade. 
Deixai-me refletir: Spurio, cento e cinqenta; Sebastio, outro tanto; Corambus, outro tanto; Jaques, 
outro tanto; Guiltian, Cosmo, Ludovico e Gratii, duzentos e cinqenta cada; minha prpria companhia, a 
de Cristvo, Vaumond, Bentii, duzentos e cinqenta cada. Desse modo, o cmputo das tropas, entre 
doentes e sos, por minha vida, andar por umas quinze mil cabeas, sendo que metade dessa gente, de 
medo de cair em pedaos, no se atreve a sacudir a neve dos casacos. 
BERTRAM - Que  que esse sujeito merece que lhe faamos? 
PRIMEIRO NOBRE - Nada, a no ser agradecermos-lhe. Pergunta o que ele pensa a meu respeito e de 
que conceito eu gozo junto do duque.
PRIMEIRO SOLDADO - Muito bem; j est escrito. "Deveis perguntar-lhe se no acampamento h um 
certo Capito Dumain, francs; em que conceito  tido pelo duque, se  homem de valor, honesto e 
experiente em assunto de guerra, e se no ser possvel, mediante uma boa soma de ouro induzi-lo a 
rebelar-se." Que dizeis disto agora? Sabeis algo a respeito? 
PAROLLES - Por obsquio, permiti que responda por partes. Formulai as perguntas uma a uma. 
PRIMEIRO SOLDADO - Conheceis esse Capito Dumain? 
PAROLLES - Conheo-o, sim; era aprendiz de um remendo, em Paris, de onde foi expulso a chibatadas 
por haver engravidado uma rapariga simplria da casa do xerife, idiota e muda, que no sabia dizer no. 
(Dumain, encolerizado, levanta a mo.) 
BERTRAM - Por obsquio, deixai a mo em paz, que o crebro dele se tornar alvo da primeira telha 
que escapar de cima. 
PRIMEIRO SOLDADO - Muito bem. Esse capito se acha no acampamento do Duque de Florena? 
PAROLLES - Por tudo quanto sei, est, e cheio de piolhos. 
PRIMEIRO NOBRE - Oh, no me olheis desse modo, senhor, que dentro de pouco vamos ouvir falar de 
Vossa Senhoria. 
PRIMEIRO SOLDADO - De que conceito ele goza junto do duque? 
PAROLLES - O duque s o considera como um pobre oficial da minha companhia, tendo-me escrito h 
dias uma carta para que o mandasse embora. Penso que ainda devo ter essa carta no bolso. 
PRIMEIRO SOLDADO - Ento vamos procur-la. 
PAROLLES - Para ser sincero, no tenho muita certeza; se no estiver no bolso, deve estar na minha 
tenda, num mao de cartas do duque. 
PRIMEIRO SOLDADO - Aqui est ela! Se no  ela,  coisa semelhante. Posso ler-vos o que contm? 
PAROLLES - No sei se ser essa carta. 
BERTRAM - Nosso intrprete representa muito bem o seu papel. 
PRIMEIRO NOBRE - Excelentemente. 
PRIMEIRO SOLDADO - "Diana, o conde  um bobo cheio de dinheiro..." 
PAROLLES - Isso no  a carta do duque, mas uma advertncia a uma senhorita honesta de Florena, 
uma tal Diana, para acautelar-se contra as sedues de um tal Conde de Rossilho, um rapazola tolo e 
sem ocupao, mas, por isso mesmo, muito luxurioso. Por obsquio, guardai esse papel. 
PRIMEIRO SOLDADO - No; primeiro hei de l-lo, com vossa permisso. 
PAROLLES - Minha inteno, ao escrev-lo, posso asseverar-vos, era das mais honestas, com relao  
donzela, pois tenho o conde na conta de um rapaz lbrico e perigoso, verdadeira baleia da virtude, que 
devora quanto peixinho lhe passa pela frente.
BERTRAM - Velhaco de uma figa! Patife por todos os lados! 
PRIMEIRO SOLDADO - "Em vez de juras, toma-lhe dinheiro. Conta feita por ele  coisa morta. Por 
isso, trata de o cobrar, primeiro; por menos que lho arranques,  o que importa. Ouve, Diana, o conselho 
de um soldado: beijar no deves moo ou namorado. Conheo bem a condio do conde, que nunca 
soube onde o rubor se esconde. Teu, conforme aos ouvidos j te disse, Parolles." 
BERTRAM - Ser levado por todo o acampamento, para ser chibateado com esses versos na testa. 
PRIMEIRO NOBRE -  o vosso amigo devotado, senhor, o famoso poliglota e soldado invencvel. 
BERTRAM - Nunca suportei a vista de gatos; de agora em diante, para mim ele no passar de um gato. 
PRIMEIRO SOLDADO - Do olhar de nosso general, senhor, deduzo que teremos de enforcar-vos. 
PAROLLES - Oh, senhor! A vida, seja por que preo for! No  que a morte me cause medo; mas sendo 
tantos os meus pecados, desejaria passar o que me sobrasse de tempo a arrepender-me deles. Deixai-me 
viver 
PRIMEIRO SOLDADO - Veremos o que  possvel fazer, no caso de serdes sincero na confisso. Mas 
voltemos a esse Capito Dumain. J respondestes com relao ao seu valor e ao conceito em que ele  
tido junto ao duque. E quanto  honestidade? 
PAROLLES - Roubar, senhor, um ovo de um convento, pois quanto a roubos e violaes s  
comparvel a Nessus. Ele se gaba de no manter juramentos, sendo mais forte do que Hrcules para 
quebr-los. Mentir, senhor, com tal volubilidade, que a verdade vos parecer uma tola. O vcio da 
bebida  a sua maior virtude, pois se embebeda como um porco e no sono no causa nenhum dano, a no 
ser  roupa da cama. Mas, por ser conhecido nesse particular,  posto a dormir sobre palha. A respeito da 
honestidade, senhor, pouqussimo ainda poder ser acrescentado, se no for que ele tem tudo quanto uma 
pessoa honesta no deve ter, sendo inteiramente carecente de quanto precisa ter uma pessoa honesta. 
PRIMEIRO NOBRE - J comeo a am-lo por isso. 
BERTRAM - Por causa da descrio de tua honestidade? A peste que o carregue! Para mim, cada vez 
torna-se mais gato. 
PRIMEIRO SOLDADO - E que dizeis de seus conhecimentos blicos? 
PAROLLES - Por minha f, senhor, ele tocou tambor diante dos comediantes ingleses... No est em 
mim caluni-lo, mas ignoro que houvesse exercido qualquer outra atividade soldadesca, a no ser que 
teve a honra de ser na Inglaterra oficial no lugar denominado Mile-end, para ensinar os recrutas a 
formarem a dois de fundo. Desejaria conceder ao homem as honras que pudesse, mas nesse particular 
no estou muito seguro. 
PRIMEIRO NOBRE - De tal modo ele supervilanizou a vilania, que se tornou digno de admirao pela 
sua prpria raridade. 
BERTRAM - A peste que o carregue! Continua sendo um gato. 
PRIMEIRO SOLDADO - Sendo to minguado de virtudes, no terei necessidade de perguntar-vos se o 
ouro poderia lev-lo  desero.
PAROLLES - Por um quart d'cu, senhor, ele seria capaz de vender sua parte da salvao e o direito de 
herana no cu, chegando, at, a despojar para sempre desse direito todos os seus descendentes. 
PRIMEIRO SOLDADO - E que dizem de seu irmo, o outro Capito Dumain? 
SEGUNDO NOBRE - Para que perguntar-lhe a meu respeito? 
PRIMEIRO SOLDADO - Como  ele? 
PAROLLES - Corvo do mesmo ninho; no to grande, realmente, em bondade quanto o outro, mas 
muito maior no mal. Em covardia, sobrepuja o irmo, que passa por ser um dos maiores poltres do 
mundo. Numa retirada, passa na frente de qualquer lacaio; mas quando se trata de avanar, atacam-lhe as 
cibras. 
PRIMEIRO SOLDADO - Se vos deixarmos com vida, consentireis em trair os florentinos? 
PAROLLES - Sim, e o capito de sua cavalaria, o Conde de Rossilho. 
PRIMEIRO SOLDADO - Vou falar em particular com o general, para ver o que ele decide. 
PAROLLES ( parte) - Nunca mais quero saber de tambor. A peste que leve a todos. Meti-me nesse 
perigo, somente para fingir valentia e desfazer a suspeita desse rapazola lascivo, o conde. Mas quem 
poderia suspeitar de uma emboscada no ponto em que fui preso? 
PRIMEIRO SOLDADO - No h remdio, senhor; tereis de morrer. Disse o nosso general que depois de 
haverdes revelado por maneira to vil os segredos do exrcito a que pertenceis, e dado informaes to 
pestferas de pessoas tidas em to alto conceito, no podeis ser de nenhum uso honesto neste mundo. Por 
tudo isso, precisais morrer. Carrasco, fora com a cabea dele! 
PAROLLES - Oh, Deus, senhor! Deixai-me viver, ou deixai-me ver a morte! 
PRIMEIRO SOLDADO - Bem; isso vos ser permitido, como tambm despedir-vos de vossos amigos. 
(Desvenda-lhe os olhos.) 
Olhai  volta: conheceis algum dos presentes? 
BERTRAM - Bom dia, nobre capito. 
SEGUNDO NOBRE - Deus vos abenoe, Capito Parolles. 
PRIMEIRO NOBRE - Deus vos guarde, nobre capito. 
SEGUNDO NOBRE - Capito, tendes alguma comisso para o senhor Lafeu? Estou de viagem para a 
Frana. 
PRIMEIRO NOBRE - Meu bom capito, no podeis dar-me uma cpia do soneto que escrevestes a 
Diana, a propsito do Conde de Rossilho? Se eu no fosse to covarde, vo-la tomaria  fora Passai 
bem. 
(Saem Bertram e os nobres.) 
PRIMEIRO SOLDADO - Capito, ficastes reduzido a nada, com exceo de vossa charpa, que ainda 
conserva um n.
PAROLLES - Quem no seria esmagado por uma conjura? 
PRIMEIRO SOLDADO - Se puderdes encontrar um lugar em que as mulheres sejam to destitudas de 
vergonha quanto vs, fundareis um povo de deslavados. Eu tambm parto para a Frana. L falaremos de 
vs. 
(Sai.) 
PAROLLES - Ainda assim, agradeo. Se no peito tivesse grande corao, agora teria ele estourado. 
Foi-se o ttulo de capito; mas como qualquer deles vou tratar de comer, beber e ao sono calmamente 
entregar-me. Minha vida vai depender, de agora em diante, apenas do que realmente sou. Os que na 
conta se tiverem de biltres tomem nota, pois  certeza revelar-se burro todo lorpa que  gente por 
bamburro. Brio, arrefece! Espada, cria ronha! Parolles vai deixar de ter vergonha. A vida continua a ser 
risonha. Vou segui-los. 
(Sai.) 
Cena IV 
Florena. Um quarto em casa da viva. Entram Helena, a viva e Diana. 
HELENA - Para terdes certeza de que em tudo convosco fui sincera, vou trazer-vos como fiador um 
nome dos maiores da cristandade, sendo necessrio que ante seu trono eu v dobrar os joelhos antes de 
ao fim chegar do meu propsito. Prestei-lhe h tempo singular servio, to caro quanto a vida. O prprio 
peito do trtaro insensvel abalado poderia ficar e em tudo grato. Soube de fonte certa que Sua Graa se 
acha em Marselha, estando de partida para l um comboio de confiana. Dispersadas as tropas, meu 
marido voltar para casa, onde, com a ajuda do cu e a permisso do rei meu amo, chegaremos primeiro. 
VIVA - Gentil dama, nunca tivestes serva a quem tocasse to perto vossa dita. 
HELENA - Nem amiga, senhora, j tivestes, cuja mente to indefesa trabalhasse para premiar-vos a 
amizade. Fui eleita pelo cu, podeis crer-me, para o dote prover de vossa filha, assim como ela tambm o 
foi para ajudar-me agora a reaver meu marido.  estranhos homens, que vos mostrais, assim, to 
carinhosos para quem vos tem dio, quando as formas lascivas dos sentidos enganados a tenebrosa noite 
deixam suja! Desse modo a luxria se alimenta com o que repulsa lhe produz violenta. Mas depois 
voltaremos a esse assunto, sendo preciso, Diana, que sob minha modesta direo venhais de novo a 
padecer por mim. 
DIANA - Embora a morte, de par com a honestidade, me adviesse de vossa imposio, a vs perteno, 
declarando-me pronta a sofrer quanto me mandardes fazer. 
HELENA - Pacincia um pouco. No falta muito para que de novo tenhamos o vero, quando as roseiras 
se cobrirem de flores e de espinhos, agradveis ficando, a um tempo, e agudas. Precisamos partir; nossa 
carruagem j se acha pronta; o tempo nos convida.  sempre bom tudo o que acaba bem. O fim coroa a 
obra. A trajetria mais difcil importa maior glria. 
(Saem.)
Cena V 
Rossilho. Um quarto no palcio da condessa. Entram a condessa, Lafeu e o bobo. 
LAFEU - No, no, no! Vosso filho foi desencaminhado por um sujeito vestido de tafet, cujo execrvel 
aafro poderia tingir toda a mocidade mal cozida e pastosa de uma nao. Sem ele, vossa nora ainda 
poderia estar viva, e em Frana vosso filho, muito mais favorecido pelo rei do que por esse zango de 
cauda vermelha, a que me referi. 
CONDESSA - Desejara nunca o ter conhecido. Foi a causa da morte da mais virtuosa donzela que jamais 
a natureza teve a honra de criar. Se ele fosse de meu sangue e me tivesse custado os mais agradveis 
gemidos de uma me, no poderia dedicar-lhe mais entranhado amor. 
LAFEU - Excelente menina! Excelente menina! Teremos de apanhar mil saladas para encontrar outra 
verdura igual. 
BOBO - Realmente, senhor, ela era a mangerona, ou melhor, a arruda da salada. 
LAFEU - Isso no so verduras, idiota, mas flores perfumadas. 
BOBO - Ora, senhor, eu no sou o grande Nabucodonosor; entendo muito pouco de ervas. 
LAFEU - Que  que presumes ser, realmente: velhaco ou tolo? 
BOBO - Tolo, senhor, a servio de uma mulher, e velhaco ao de um homem. 
LAFEU - Por que essa diferena? 
BOBO - Porque enganaria o homem com sua mulher e faria o servio dele. 
LAFEU - Assim, realmente, sereis um velhaco ao servio dele. 
BOBO - E  mulher dele, senhor, daria o meu basto, pondo-me ao seu servio. 
LAFEU - Direi de ti que s as duas coisas ao mesmo tempo: velhaco e tolo. 
BOBO - Ao vosso servio. 
LAFEU - No! No! No! 
BOBO - Por que no, senhor? Se no puder ficar a vosso servio, poderei ficar no de um prncipe to 
grande quanto vs. 
LAFEU - Quem  esse prncipe?  francs, acaso 
BOBO - Por minha f, senhor; o nome dele  ingls, mas sua fisionomia  mais quente na Frana do que 
aqui. 
LAFEU - Que prncipe  esse? 
BOBO - O prncipe negro, senhor; alis, o prncipe das trevas, o demnio. 
LAFEU - Basta; toma esta bolsa, que, alis, no  dada com a inteno de afastar-te do amo de que
falaste. Continua a servi-lo. 
BOBO - Eu sou um habitante dos bosques, senhor, que sempre gostei de uma boa fogueira. Ora, o amor 
de que vos falei mantm sempre um fogo vivo. Mas uma vez que ele  o prncipe do mundo, que sua 
nobreza permanea na corte. Eu sou pela casa da porta estreita, que considero pequena em demasia para 
que possa entrar a pompa; os que se humilharem, passaro; mas em sua maioria os homens so por 
demais delicados e friorentos e s transitam pela estrada florida, que vai dar na porta ampla e no fogo 
vivo. 
LAFEU - Segue o teu caminho. Comeo a me enfarar de ti, o que declaro com antecedncia, para que 
no venhamos a nos desavir. Segue o teu caminho e vai ver se os meus cavalos esto sendo tratados sem 
nenhuma maroteira. 
BOBO - Se com eles usasse de maroteira, senhor, seriam maroteiras cavalares, o que eles tm direito, 
pela lei da natureza. 
(Sai.) 
LAFEU - Um maroto ladino e de grande malvadez. 
CONDESSA -  o que ele , de fato. O meu defunto marido se divertia bastante  custa dele. S continua 
aqui em casa por ser isso disposio testamentria de meu marido, que ele considera carta de privilgio 
para suas maroteiras. O certo  que ningum lhe embarga o passo, correndo ele por onde bem entende. 
LAFEU - Gosto muito dele; no  mau sujeito. Mas estava para dizer-vos que, desde que eu soube da 
morte da boa senhora e que meu senhor vosso filho j estava de volta, intercedi junto ao rei para que ele 
lhe falasse a favor de minha filha, o em que Sua Alteza j havia pensado em sua graciosa deliberao, 
quando ambos eram de menoridade. Sua Alteza prometeu interceder nesse sentido, o que  a melhor 
maneira de desfazer a m vontade que ele pudesse ter em relao a vosso filho. Que diz Vossa Senhoria 
dessa idia? 
CONDESSA - Alegra-me bastante, milorde, sendo meu desejo que possa vir a realizar-se sem nenhum 
embarao. 
LAFEU - Sua Alteza chega de Marselha to lpido como quando tinha trinta anos. Estar aqui amanh, 
se desta vez no me enganou a pessoa cujas informaes raramente falham 
CONDESSA - Alegra-me a esperana de rev-lo antes de morrer. Recebi cartas de meu filho, com a 
notcia de sua chegada para esta noite. Peo que Vossa Senhoria se demore aqui em casa, at que eles se 
falem. 
LAFEU - Estava a procurar um pretexto, minha senhora, para justificar isso mesmo. 
CONDESSA - Bastaria invocardes vosso honroso privilgio. 
LAFEU - A que j tenho recorrido muitas vezes, minha senhora; mas, graas a Deus, ainda conserva o 
prestgio. 
(Volta o bobo.) 
BOBO - Minha senhora! L fora est o jovem conde, vosso filho, com um emplastro de veludo no rosto. 
Se esconde alguma cicatriz, s o veludo  que poder diz-lo. Mas  um timo emplastro de veludo. A
face esquerda dele  de trs plos e meio; mas a direita  inteiramente glabra. 
LAFEU - Uma cicatriz adquirida nobremente, ou uma cicatriz nobre,  uma bela distino honorfica, tal 
como  de supor que seja essa. 
BOBO - Sim, mas o rosto  que nos fica riscado! 
LAFEU - Vamos ao encontro de vosso filho; j me tarda poder conversar com esse jovem e nobre 
soldado. 
BOBO - Por minha f! h uma dzia deles, com chapus delicados e ricos, de plumas galantes, que no 
param de fazer mesuras e cumprimentar todo o mundo. 
(Saem.) 
ATO V 
Cena I 
Marselha. Uma rua. Entram Helena, a viva e Diana, com dois criados. 
HELENA - O viajar incessante, dia e noite, vos deixou esgotada. No podemos dar remdio para isso. 
Mas se os dias e as noites confundistes, e esse grceis membros magoastes para meu proveito, tende 
pacincia, pois de tal maneira na minha gratido vos enraizastes, que impossvel ser dali sairdes. Feliz 
encontro! 
(Entra um gentil-homem falcoeiro.) 
Este homem poderia obter-me audincia junto ao rei, no caso de usar a meu favor de seu prestgio. Deus 
vos guarde, senhor! 
FALCOEIRO - E a vs tambm. 
HELENA - Em Frana j vos vi, senhor; na corte. 
FALCOEIRO - Sim, l j estive algumas vezes. 
HELENA - Creio, senhor, que ainda gozais do alto conceito da bondade que todos vos louvavam. Assim, 
premida pelas circunstncias que esquecida me fazem por completo das maneiras corteses, ora apelo para 
vossa virtude, que h de ser-me para sempre lembrada. 
FALCOEIRO - Que quereis? 
HELENA - Que tenhais a bondade de ao rei fazer chegar este pedido de minha parte, humilde, e de 
ajudar-me quanto em vs estiver, porque falar-lhe me venha a ser possvel. 
FALCOEIRO - Mas Sua Alteza no se acha aqui. 
HELENA - Que me dizeis, senhor! 
FALCOEIRO - Partiu  ltima noite, com mais pressa do que de hbito. 
VIVA - Oh Deus! Perdemos todo nosso trabalho!
HELENA - Ainda vos afirmo que bem est tudo o que bem acaba, muito embora parea o tempo adverso 
e os meios deficientes. Por obsquio, para onde foi o rei? 
FALCOEIRO - Para o castelo de Rossilho, segundo me disseram. Para l me dirijo. 
HELENA - Por obsquio, senhor, j que  provvel encontrardes o rei antes de mim, nas mos graciosas 
entregai-lhe esta carta. Nenhum dano disso vos advir, sendo possvel que venhais a alcanar alguma 
graa. Seguir-vos-ei com toda a diligncia possvel. 
FALCOEIRO - Bem; farei o que pedistes. 
HELENA - Haveis de ser recompensado, tenha tudo o fim que tiver. Mas  preciso montarmos a cavalo 
novamente. Depressa! Cuidai disso. 
(Saem.) 
Cena II 
Rossilho. Ptio interior do palcio da condessa. Entram o bobo e Parolles. 
PAROLLES - Meu bom senhor Lavache, entregai esta carta a milord Lafeu. J me conhecestes em 
melhores condies, senhor, quando eu vivia na familiaridade de roupas mais limpas. Mas agora, senhor, 
sujei-me no pntano da Fortuna e exalo o cheiro muito ativo de seu ativo desfavor. 
BOBO - Por minha f,  preciso que o desfavor da Fortuna seja, de fato, repelente, para exalar cheiro to 
ativo como dissestes. De hoje em diante no comerei peixe fritado na manteiga da Fortuna. Por obsquio, 
no fiqueis do lado de que sopra o vento. 
PAROLLES - Ora, senhor, no h necessidade de tapardes o nariz; falei s por metfora. 
BOBO - Pouco importa, senhor. Se as vossas metforas federem, taparei, da mesma forma, o nariz diante 
delas, como diante das metforas de quem quer que seja. Afastai-vos, por obsquio. 
PAROLLES - Por obsquio, senhor, entregai este papel  pessoa de que vos falei. 
BOBO - Pah! Recuai, senhor! Entregar a um gentil-homem um papel que vem da retrete da Fortuna! Mas 
vde! A vem vindo ele. 
(Entra Lafeu.) 
Aqui est, senhor, um bichano ou gato da Fortuna - sem ser almiscareiro - que caiu no viveiro 
nauseabundo do seu desfavor e que, como ele prprio o declarou, se emporcalhou todo. Conjuro-vos, 
senhor, a proceder com esta carpa da maneira por que bem entenderdes, pois parece ser um pobre-diabo, 
decado, engenhoso e idiota. Com esses smiles de consolo, lamento-lhe a desgraa e o entrego a Vossa 
Senhoria. 
PAROLLES - Milorde, eu sou uma criatura a quem a Fortuna arranhou por maneira crudelssima. 
LAFEU - E que quereis que eu faa? Agora  tarde para aparar-lhe as unhas. Mas que maroteira fizestes 
 Fortuna, para que ela vos arranhasse? De si, ela  uma boa senhora; apenas no suporta que os marotos 
prosperem sob sua capa. Aqui tendes um quart d'cu. Que o juiz promova a paz entre vs; tenho outras 
ocupaes.
PAROLLES - Suplico a Vossa Honra ouvir-me apenas uma palavra. 
LAFEU - Com isso, apenas mendigais mais um vintm. Bem; que seja; ser vosso; mas dispensai-me de 
ouvir essa palavra. 
PAROLLES - Meu nome, meu bondoso lorde,  Parolles. 
LAFEU - Desse modo, pedis mais de uma palavra. Deus  a minha paixo! Dai-me a mo. Como passa o 
vosso tambor? 
PAROLLES - Oh, meu bom senhor! Fostes o primeiro a encontrar-me. 
LAFEU - Verdade? E o primeiro, tambm, a perder-te. 
PAROLLES - Depender de vs, milorde, repor-me junto da graa, por que fostes vs que me tirastes de 
perto dela. 
LAFEU - Como assim, maroto! Atribus-me, a um s tempo, o oficio de Deus e do diabo? Um te repe 
na graa e o outro te tira dela. 
(Ouve-se toque de clarim.) 
O rei vem vindo; conheo-o pelo toque de clarim. Depois procura por mim, maroto; ainda esta noite falei 
a teu respeito. Embora sejas maroto e tonto, precisars comer. Vamos; vem comigo. 
PAROLLES - Rogarei a Deus por vs. 
(Saem.) 
Cena III 
O mesmo. Um quarto no palcio da condessa. Clarins Entram o rei, a condessa, Lafeu, nobres, 
gentis-homens, guardas, etc. 
REI - Nela perdemos uma jia rara, o que nos depreciou. Mas vosso filho, louco de todo em todo, 
revelou-se inteiramente falho de sentidos para avaliar-lhe o preo. 
CONDESSA - Isso ao passado pertence, meu senhor. Suplico a Vossa Majestade tomar o caso como 
rebelio natural da mocidade, em que o leo e o fogo, em demasia fortes para a razo, em chamas se 
derramam. 
REI - Mui prezada senhora, perdoei tudo, tudo esqueci, conquanto j contra ele minha vingana armada 
se encontrasse, pronta para o disparo. 
LAFEU - Devo dizer - pedindo previamente perdo do atrevimento - que milorde moo ofendeu, de fato, 
seu monarca, sua me e a consorte; mas foi ele, ele mesmo, quem teve mais prejuzo: perdeu a esposa, 
cuja formosura ofuscava a viso mais aguada, cuja fala prendia as oias todas, cujo primor forava os 
mais ardentes peitos a declararem-se cativos. 
REI - O louvor do passado, mais querida deixa sua lembrana. Bem; chamei-o. J estamos calmos; a 
primeira vista apagar qualquer lembrana triste. No nos pea perdo; morta j se acha a natureza de sua 
grande culpa, cujos restos ardentes enterramos mais fundo do que o oblquo. Ele que venha como 
estrangeiro, no como culpado. Explicai-lhe qual  nossa vontade.
GENTIL-HOMEM - Pois no, meu soberano. 
REI - Que diz. ele de vossa filha? Acaso lhe falastes? 
LAFEU - Pe-se ao dispor de Vossa Majestade. 
REI - Ento faremos esse casamento Recebi cartas que me falam dele em termos elogiosos. 
(Entra Bertram.) 
LAFEU - No semblante l-se-lhe que est bem. 
REI - No sou um dia de nevoeiro contnuo, que a um s tempo poders em mim ver sol e granizo. 
Cedem, porm, o passo as nuvens negras aos raios luminosos. Aproxima-te; volta a ser belo o tempo. 
BERTRAM - Meu querido soberano, perdoai-me os grandes erros de que sinceramente me arrependo. 
REI - Tudo est bem; nem mais uma palavra sobre o passado. A ocasio peguemos pelos cabelos, pois j 
estamos velhos; nossas resolues mais apressadas, o p sutil do tempo silencioso talvez as ultrapasse 
antes que possam tornar-se realidade. Estais lembrado da filha deste nobre? 
BERTRAM - Com inefvel admirao, senhor. Logo de incio fiz dela a minha escolha, antes que o 
ousado corao se atravesse a transformar-me em arauto atrevido a lngua tmida. Ao fixar nela os olhos, 
a mirada desdenhosa emprestou-me o vil desprezo que torce os traos a qualquer beleza, desdenha as 
cores frescas, por esprias, e dilata ou comprime qualquer forma proporcional no mais hediondo objeto. 
Foi por ter isso acontecido que ela - objeto de louvor de todo o mundo e que eu amava desde que a 
perdera - passou-me a ser na vista o gro de poeira que incomoda sem trguas. 
REI - Boa escusa. O fato de lhe teres algum dia dedicado esse amor, apaga enormes colunas de tua dvida 
vultosa. Mas o amor atrasado, como a prpria demncia relutante e obtida a custo, para o grande doador 
no cessa nunca de clamar, qual censura merecida: "J est morto o inocente". Nossas faltas precipitadas 
s desprezo mostram por quanto de valioso seja nosso, no lhes dando valor, enquanto dura, seno 
quando j est na sepultura. Por vezes, nosso desprazer, injusto conosco mesmo, esmaga a todo custo 
nossos amigos, para lastim-los, quando cinza se tornam. Despertado, o amor, em ns, lastima o 
acontecido, enquanto o dio dormita a tarde toda. Sirva de dobre de finados isto para a bondosa Helena. 
E agora esquece-te dela. Remete o teu penhor sincero para a bela Magdala, que j  tua. Permanecer aqui 
 meu intento, para assistir do vivo o casamento. 
CONDESSA - Que o cu abenoar mais que o primeiro; ou, natureza, mata-me ligeiro! 
LAFEU - Filho, em quem deve continuar o nome de minha casa, d-me um penhor digno de teu afeto, 
que a centelha avive no esprito da noiva, porque prestes ela venha at aqui. 
(Bertram lhe entrega um anel.) 
Por minha velha barba e seus plos, a defunta Helena era graciosa e boa. Ao despedir-se da corte a ltima 
vez, vi-lhe no dedo um anel igual a este. 
BERTRAM - Mas no este! 
REI - Mostrai-mo, por obsquio, pois enquanto vos falava o olhar tinha nele fixo. Esse anel j foi meu; a 
Helena o dei, Tendo-lhe asseverado que se um dia se visse abandonada pela sorte, pronto a auxili-la me
acharia,  vista desta minha lembrana. Como o ousio tivestes de priv-la do que acima de tudo ela 
prezava? 
BERTRAM - Meu gracioso soberano, conquanto vos agrade considerar o anel sob esse aspecto, jamais 
lhe pertenceu. 
CONDESSA - Filho, por minha vida, esse anel eu vi no dedo dela, que o amava tanto como a prpria 
vida. 
LAFEU - Tenho certeza de a ter visto com ele. 
BERTRAM - Enganais-vos, milorde; jamais ela viu semelhante anel. Este jogado, em Florena, me foi 
de uma janela, num papel envolvido, que continha o nome da pessoa que o jogara. Era uma jovem nobre, 
que me tinha na conta de solteiro. Mas ao p-la a par da situao, com informar-lhe sem circunlquios 
que impossvel fora, dentro das normas da honra, efetivar-se o que eu adivinhava em seus acenos, ficou 
de todo satisfeita e nunca me reclamou o anel. 
REI - O prprio Pluto, sabedor do elixir e da alquimia, no conhece os mistrios da natura como eu os 
desse anel, sim, esse mesmo, que foi meu e de Helena. Pouco importa quem vo-lo houvesse dado. Assim, 
se tendes pleno conhecimento de vs prprio, confessai que esta jia foi de Helena, revelando-nos a 
spera violncia por que viestes a obt-la. O testemunho ela invocou dos santos, de que nunca do dedo o 
tiraria, se no fosse para no leito vo-lo dar de npcias (a que jamais subistes) ou enviar-no-lo, quando se 
visse em conjuntura extrema. 
BERTRAM - Ela jamais o viu. 
REI - Ests mentindo, afirmo-o por minha honra. E ora me fazes admitir conjeturas que o receio me leva 
a repelir. Caso tu houvesses sido to desumano, o que impossvel ser de demonstrar, embora a dvida 
me remanesa, ainda... Tinhas-lhe dio mortal, e ela morreu. Nada podia fazer-me crer mais nisso do que 
a vista desse anel. Vale o mesmo que eu a houvesse visto morrer. Levai-o daqui preso! 
(Os guardas seguram Bertram.) 
Seja qual for o desenlace disto, minha experincia do passado leva-me a no considerar vos meus 
receios. Vamos! Levai-o logo! Ainda haveremos de examinar esta questo por mido. 
BERTRAM - Caso possais provar que em qualquer tempo lhe pertenceu o anel, tereis provado que como 
esposo lhe subi no leito, e isso em Florena, onde ela nunca esteve. 
(Sai escoltado.) 
REI - Uma suspeita atroz me deixa aflito. 
(Entra o gentil-homem falcoeiro.) 
FALCOEIRO - Gracioso soberano, ignoro se mereo, ou no, censura. Este requerimento me foi dado 
por uma florentina que atrasada ficou de vs de trs ou quatro postas, para que em mos pudesse 
apresentar-vo-lo. Aceitei a incumbncia, comovido ante a graa e as palavras eloqentes da pobre 
suplicante, que, segundo me disseram, aguarda aqui despacho. Traduz-se-lhe nos traos fisionmicos a 
importncia do assunto, que, conforme ela prpria o explicou em termos suaves e concisos, tanto a ela 
diz respeito como a Vossa Grandeza. 
REI - "Ante as inmeras promessas de casar comigo, quando sua esposa viesse a falecer - coro ao
confess-lo - deixei-me conquistar por ele. Agora, o Conde de Rossilho est vivo, falharam todos os 
seus juramentos, o que me custou a honra. Fugiu de Florena sem despedir-se de mim, tendo-o eu 
seguido at este pas, a fim de impetrar justia. Concedei-ma,  rei! que est em vs faz-lo, que, de 
outro modo, um sedutor triunfa e uma pobre donzela ficar perdida. Diana Capuleto." 
LAFEU - Vou comprar um genro na feira; no quero saber deste; pagarei a sua taxa. 
REI - Inspirou-te, o cu, fazendo-te descobrir isto tudo. Que introduzam logo essas suplicantes e 
trazei-me de novo o conde. 
(Saem o gentil-homem falcoeiro e alguns guardas.) 
Tenho muito medo, senhora, de que Helena houvesse sido assassinada por maneira brbara. 
CONDESSA - Ento, justia para os criminosos. 
(Volta Bertram escoltado.) 
REI - Admira-me, senhor, que, sendo todas as mulheres, segundo vs, uns monstros de que correis, 
depois de lhes jurardes fidelidade, ainda penseis em npcias. 
(Volta o gentil-homem falcoeiro com a viva e Diana.) 
Quem  essa mulher? 
DIANA - Uma ultrajada florentina, milorde, que descende da casa dos antigos Capuletos. A par j estais, 
segundo me disseram, do que me trouxe aqui. Sabeis, portanto, at quando sou digna de piedade. 
VIUVA -  minha filha, meu senhor; meus anos e meu nome padecem vituprio pela ofensa que a vossos 
ps nos trouxe, sendo fora extinguirem-se, no caso de no nos dardes o remdio azado. 
REI - Aproximai-vos, conde. Quem so estas senhoras? Conhecei-las? 
BERTRAM - Majestade, no posso nem desejo contest-lo. Acusam-me de mais alguma coisa? 
DIANA - Por que olhais vossa esposa desse modo? 
BERTRAM - No  minha, senhor. 
DIANA - Se vos casardes, essa mo heis de dar, que me pertence; o voto quebrareis, que me pertence; a 
mim prpria dareis, que me perteno, pois nossas juras nos uniram tanto que quem vos desposar casa 
comigo. Ou ns dois, ou nenhum. 
LAFEU (a Bertram) - Vossa reputao caiu muito ante minha filha; no sois marido para ela. 
BERTRAM - Senhor, esta mulher  uma criatura apaixonada e louca. Diverti-me, por vezes, ao seu lado, 
mas conjuro Vossa Graa a fazer melhor conceito do meu nome, no dando acolhimento  idia de que 
viesse a cair tanto. 
REI - No podereis, senhor, ficar amigo do meu conceito, enquanto, pelos atos, merecedor no vos 
mostrardes disso. Tratai de dar mais forte brilho ao nome do que o que tem no meu conceito agora. 
DJANA - Bondoso soberano, perguntai-lhe, sob juramento, se ele no presume que me colheu, de fato, a 
virgindade? 
REI - Que lhe respondes a isso?
BERTRAM -  uma impudente, senhor; no acampamento era manceba de todos os soldados. 
DIANA -  injustia, senhor, que ele me faz, porque se eu fosse isso que ora falou, ter-me-ia, certo, 
adquirido por preo insignificante. Crdito no lhe deis. Vde este anel, que em alta estima e rica 
avaliao no acha paralelo. No entretanto, com isto ele comprou uma manceba de todos os soldados, se 
 que eu o era. 
CONDESSA - Ele ficou corado;  o anel dele. Desde seis geraes vem esta jia sendo doada em 
testamento e sempre trazida pelo dono em alta estima. Ela , de fato, esposa dele; vale por mil provas o 
anel. 
REI - No me dissestes que haveis visto algum aqui na corte que vos podia confirmar tudo isso? 
DIANA - Disse, milorde; mas  envergonhada que apelo para o testemunho dele. Parolles  o seu nome. 
LAFEU - Vi esse homem hoje mesmo na corte, se  que o nome de homem podemos dar-lhe. 
REI - Ide busc-lo. 
(Sai um criado.) 
BERTRAM - A que vem ele aqui? Na conta  tido de um prfido sujeito, conspurcado de todos os 
defeitos deste mundo, e que doente se mostra  s idia de dizer a verdade.  concebvel que eu venha a 
ser o que disser um homem que afirma o que quiserem? 
REI- Mas  certo ter ela o vosso anel. 
BERTRAM - No o nego;  o mesmo. Confesso que cheguei a gostar dela e que lho declarei, seguindo 
nisso o uso da mocidade. Tendo plena conscincia da distncia que medeava entre ns dois, com risos e 
negaas soube engodar-me o ardor, por ser sabido que tudo o que se ope  fantasia s serve de excit-la. 
Finalmente, sua infinita astcia associada  beleza vulgar que me inflamava, me venceram de todo. Desse 
modo conseguiu ela o anel, tendo eu obtido por esse custo o que qualquer soldado viria a ter por preo do 
mercado. 
DIANA - Preciso revestir-me de pacincia. Vs, que esposa to nobre repudiastes menoscabar de mim 
podeis agora. S uma coisa vos peo - pois to falho de brio vos mostrais, perco o marido - mandai 
buscar o anel, que eu vo-lo entrego; mas devolvei o meu. 
BERTRAM - No est comigo. 
REI - Por favor, a que anel vos referistes? 
DIANA - Em tudo igual, meu soberano, a esse que vos vejo no dedo. 
REI - Conhecei-lo? At h pouco este anel lhe pertencia. 
DIANA - Ento foi esse que lhe dei no leito. 
REI - Assim, no  verdade que lho houvsseis jogado da janela? 
DIANA - Disse o que houve. 
(Volta o criado com Parolles.)
BERTRAM - Senhor, confesso que esse anel foi dela. 
REI - Vacilais a toda hora; qualquer pena vos faz estremecer.  este o sujeito a que vos referistes? 
DIANA - Sim, milorde. 
REI - Concito-vos, maroto, a declarar-nos - mas sem mentir e sem mostrardes medo de poder vir a 
desgostar vosso amo - o que dele sabeis e desta dama. 
PAROLLES - Se for do agrado de Vossa Majestade, direi que meu amo sempre se portou como um 
gentil-homem honrado.  certo ter praticado algumas arrelias, mas isso como qualquer gentil-homem 
costuma fazer. 
REI - Vamos ao que importa. Ele amou esta mulher? 
PAROLLES - Por minha f, senhor, amou. Mas como? 
REI - Como?  o que pergunto. 
PAROLLES - Ele a amou, senhor, como um cavalheiro ama uma mulher. 
REI - E como  isso? 
PAROLLES - Ele a amou, senhor, e ao mesmo tempo no a amou. 
REI - Como tu s velhaco e ao mesmo tempo no s velhaco. Que sujeito cheio de distines! 
PAROLLES - Sou um pobre homem, senhor, s ordens de Vossa Majestade. 
LAFEU - Tambor ele  bom, milorde, mas pssimo orador. 
DIANA - Sabeis que ele me prometeu casamento? 
PAROLLES - Por minha f, sei muito mais do que vou falar. 
REI - Ento no pretendes dizer tudo o que sabes? 
PAROLLES - Se for do agrado de Vossa Majestade. Como disse, eu era o intermedirio entre ambos. 
Mas, acima disso, ele a amava, porque, de fato, estava louco por ela, e falava de Satans, do limbo, das 
Frias e de no sei o que mais. Naquele tempo era to grande o meu prestgio junto deles, que eu sabia 
quando subiam para a cama e outras coisinhas mais, como, por exemplo, a promessa de casamento e 
certas particularidades que me ensejariam um bom castigo, no caso de vir a revel-las. Por isso no direi 
o que sei. 
REI - J disseste tudo, a menos que pudesses acrescentar que eles se casaram. Mas s muito precioso na 
tua exposio. Pe-te de lado. Segundo o dissestes, este anel vos pertenceu? 
DIANA - Sim, milorde. 
REI - Quem vo-lo deu? Ou ento, onde o compraste? 
DIANA - No o comprei, milorde, nem mo deram. 
REI - Quem, pois, vo-lo emprestou?
DIANA - Ningum, milorde. 
REI - Onde o encontrastes? 
DIANA - Em nenhuma parte. 
REI - Se por maneira alguma o anel foi vosso, como o destes a algum? 
DIANA - Nunca dei nada. 
LAFEU - Essa mulher, senhor,  tal qual mo em luva folgada: entra e sai  vontade. 
REI - Levai-a presa; no me agrada agora. Ponde-a no crcere: e este aqui tambm. Se no disseres como 
achaste o anel, morrers hoje mesmo. 
DIANA - Jamais hei de confessar-vos tal coisa. 
REI - Ide com ela! 
DIANA - Posso dar uma fiana. 
REI - Agora creio que eras mesmo rameira de soldados. 
DIANA - Por Jove! Se algum homem me possuiu, fostes vs. 
REI - Por que causa tanto tempo lhe assacastes tais coisas? 
DIANA - Por ser ele inocente e culpado. Ele tem cincia de que eu j no sou virgem, e o jurara; mas eu 
juro que o sou, sem que ele o creia. No me chameis,  rei, de qualquer coisa; ou virgem sou ou deste 
velho esposa. 
(Aponta para Lafeu.) 
REI - Zomba de ns. Levai-a logo presa. 
DIANA - Bondosa me, trazei depressa a fiana. 
(Sai a viva.) 
J vir o joalheiro, o proprietrio do anel, que me ser fiador seguro. Quanto a este nobre, que tem 
cincia plena de me ter desonrado, muito embora mal nenhum me fizesse, absolvo-o em tudo. Julga ele 
que meu leito est manchado, conquanto a esposa ele haja engravidado. Embora morta, nela o filho pula; 
nesta charada est minha escapula. Adivinhai agora. 
(Volta a viva, com Helena.) 
REI - Que exorcista me ilude o ofcio natural dos olhos?  real o que estou vendo? 
HELENA - No, milorde; a sombra apenas vedes de uma esposa; o nome, no a essncia. 
BERTRAM - Oh, ambos! ambos! Perdoa-me! 
HELENA - bondoso gentil-homem, quando eu era como esta senhorita vos achei sobremodo 
pressuroso. Vosso anel est aqui, e aqui a carta que me escrevestes. Nela pode ler-se: "Quando do dedo o 
anel me arrebatares, e um filho meu tiveres..." Est feito. E ora quereis ser meu com mais direito?
BERTRAM - Se ela isso demonstrar,  rei, eu juro que lhe dedicarei o amor mais puro. 
HELENA - Se tudo claro eu no deixar depois, haja eterno divrcio entre ns dois.  me querida! 
Vejo-vos com vida? 
LAFEU - Sinto alho nos olhos; estou a ponto de chorar. (A Parolles.) Meu caro Joo Tambor, 
empresta-me o leno. Assim; obrigado. Aparece l em casa, para me distrares um pouco; mas deixa de 
lado esses salamaleques, que so insuportveis. 
REI - Contar-me-eis essa histria inteira e nua, porque a alegria em borbotes deflua.(A Diana.) Se ainda 
s boto de rosa, escolhe esposo, que eu te darei um dote generoso, pois estou vendo que uma esposa 
mestra, virgem como s, salvaste por honesta. Tudo isso e o mais que ouvir no posso agora me contareis 
depois, em melhor hora. Tudo parece bem; sendo o fim doce, que importa que o comeo amargo fosse? 
(Clarins. Saem.) 
EPLOGO 
(Dito pelo rei.) 
Representada a pea,  o rei mendigo. Tudo acabar bem,  o que vos digo, se palma nos baterdes. 
Alegria vireis achar aqui dia por dia. Bastem-vos nossas boas intenes; dai-nos as mos; eis nossos 
coraes. 
(Sai.)

